terça-feira, 1 de abril de 2025

Coisas que leio e gosto

Foto José Coelho
 
Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me magoa, trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
 
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados. Sobra cobardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, o sentir e o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris teria tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
 
Não é que a fé não mova montanhas ou que todas as estrelas estejam ao nosso alcance para as coisas que não podem ser mudadas. Resta-nos somente a paciência. Porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Para os erros há perdão; para os fracassos, chance; para os amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planeando, vivendo que esperando, porque, embora quem quase morreu esteja vivo, quem quase vive já morreu.
 
Luis Fernando Verissimo

domingo, 30 de março de 2025

Vergonha na p**a da cara




Sei que o tempo não volta. Oh como sei. Outra coisa eu não soubesse! E sim, corre agora em velocidade de cruzeiro quando eu queria que ele avançasse um pouco mais devagar. Longe vai o tempo em que ele me parecia uma eternidade. Porque nunca mais era sábado para ir outra vez ao baile na Sociedade Recreativa, ou domingo para ir namorar. As semanas já tinham sete dias mas parecia terem catorze. Os dias também já tinham vinte e quatro horas mas parecia terem trinta e seis. E os meses, esses, tinham para aí oitenta dias. 

Ainda assim as pessoas eram invariavelmente felizes e bem-dispostas. Quase sempre. E eu também.

Do Natal até à Páscoa demorava uma eternidade. Os Invernos duravam uns longos seis meses, desde Outubro até Março quase sempre a chover e frios de rachar. Os Verões tinham apenas três: Junho, Julho e Agosto. Os outros três, Abril Maio e Setembro, eram de tempo ameno sem ser inverno nem verão, sem estar frio mas também sem estar calor. E toda a gente percebia os sinais dos astros. Das estrelas, do sol, da lua. Aos cinco ou seis anos já eu conhecia a estrela boieira ou da manhã, aquela que há milénios indica que o dia está prestes a romper a escuridão da noite, pois muitas vezes o romper da aurora nos surpreendia, já de mão dada, a mim e à minha mãe, a caminho das tapadas onde ela ia sachar milho ou feijão preto de sol a sol.

O astro avermelhado ao fim do dia no verão anunciava que o seguinte seria ainda mais quente. E no inverno, a cor rosada no céu poente, dava como certo um dia seguinte gélido. A lua e os seus quartos também tinham segredos. O minguante era o adequado para as sementeiras, o crescente o de fazer crescer e amadurecer os frutos, mas também de fazer crescer a boa sorte ou as dificuldades em que as pessoas se encontrassem naquele quarto de lua. Por sua vez a lua cheia, tão romântica no verão para os namorados, era temida no inverno por causa dos lobisomens cujo uivar se confundia com o do vento.

O tempo! Ah! O tempo...

Às vezes nem parece o mesmo de quando nasci. Está tudo tão diferente! Para pior, acho eu. Naquela época não havia casa, casebre ou socha que não contivesse uma família lá dentro. Fosse uma pessoa para onde fosse, da Beirã ao Cabeço de Seixo, da Beirã à Atalaia, da Beirã às Amendoeiras, da Beirã à Retorta, por todos os lugares dos quatro pontos cardeais havia gente a morar, a trabalhar, a viver. Por toda a parte se ouviam vozes a conversar, pastores a assobiar aos gados, searas a ondular nas tapadas, pomares e abundantes hortas a bordejarem os regatos e ribeiros. Chamava-se a tudo isso... Vida. E tudo isso deixou de existir. Bastaram trinta anos. Foi tudo varrido destas paragens como se vento ruim por aqui tivesse passado e com ele levado tudo.

E não sei se não foi mesmo.

Esse vento ruim, para mim, tem um nome fino e sonante. Apelidam-no de progresso. Eu não acho que ele nos tivesse trazido algo assim tão bom. Senão vejamos. Que progresso extingue tudo aquilo em que toca, desertifica freguesias, concelhos, regiões inteiras? Que progresso mata os usos e costumes de um povo maioritariamente rural de norte a sul, a sua agricultura, o seu comércio e serviços, obrigando ao êxodo em massa dessas populações para os grandes centros urbanos abandonando as suas raízes? Que progresso sobrecarrega o povo de impostos, taxas e sobretaxas para satisfazer os mercados, cujos donos visam apenas o lucro e a ganância de muitos, nem que para isso seja necessário promover a corrupção e o compadrio numa total ausência de decoro? E como se isso não fosse só por si já suficientemente censurável, ter ainda, como consequência direta, a asfixia e morte de quase todos os pequenos negócios que serviam e facilitavam a vida às populações das vilas e aldeias que teimaram e delas não quiseram arredar pé?

Que progresso extingue, em vez de modernizar e tornar rentáveis, ramais ferroviários inteiros, com tudo o que deles dependia, desrespeitando sem contemplações um património construído à custa do esforço e erário públicos, que serviram as populações e o país durante décadas? Que progresso permite que se cometam todos estes atropelos aos direitos mais elementares das pessoas, sucessivamente repetidos nos gabinetes climatizados da capital por decisores políticos sem a mínima sensibilidade social e cada um mais hostil que o anterior? Progresso é só planear autoestradas, pontes e outras obras faraónicas? E nós, os provincianos, só servimos para votar de quatro em quatro anos? 

Resmungões mas obedientes, refilando mas sempre votando... 

... nos mesmos do costume!

O tempo não volta. Mas às vezes penso que muitas das coisas antigas o tempo repete. Por exemplo, no "tempo da outra senhora" dizia-se que a política vigente era a "dos três éfes". Fátima Futebol e Festas. Curiosamente no tempo da "senhora atual" esse espírito mantém-se vivo e vibrante mesmo passados quarenta e tal anos. Basta olhar as multidões que continuam a afluir a Fátima, as paixões sempre ao rubro no Futebol, e, como não, o quanto a malta gosta de Festas. Sejam feiras medievais, romarias ou campanhas eleitorais. 

Dou a mão à palmatória e assumo sem qualquer encargo de consciência que também aprecio Fátima, Futebol não tanto, Festas menos ainda. Mas do que gosto a sério, tento praticar diariamente, ensinei aos filhos e ensino agora ensino as netas, são os valores e princípios fundamentais que me foram transmitidos pelos meus pais e avós, hoje tão raros:

- Respeito de uns para com os outros
- Dignidade no trato entre todos
- Honestidade nas palavras e atitudes
- Honradez nos compromissos assumidos
- Integridade de carácter 
   
Ou, resumido apenas numa frase...

- Vergonha na puta da cara.

Pela manifesta e total ausência da maior parte desses valores e princípios em muitas pessoas ao nosso redor mas também, infelizmente, em muitas figuras públicas que deveriam ser público exemplo mas muito pelo contrário são frequentemente a nossa vergonha coletiva, é que inúmeras vezes me revejo muito mais naquele tempo do passado, do que no presente. 

Disse.

José Coelho

sexta-feira, 28 de março de 2025

Hora de Verão


Não esquecer que na noite de sábado, 29 de março, para domingo, 30 de março de 2025, à 1h da manhã, os relógios adiantam para as 2h. Uma hora de sono a menos, mas em troca, teremos mais tempo de luz solar para desfrutar dos dias mais longos. Os smartphones e outros dispositivos electrónicos atualizam automaticamente a hora.

Bom fim de semana


Por vezes temos de esquecer o que sentimos,
para lembrar o que merecemos.

Foto José Coelho

Nunca


Desengane-se, quem o contrário pensar