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Primeiros passos
Por
ter sido então o segundo classificado do curso, deram-me a oportunidade, porque
a isso tinha direito, de escolher a colocação num Posto em que quisesse ficar, na
lista daqueles onde havia vagas para preencher. Evidentemente, para poder ir de
vez em quando a casa ter com a minha família sempre que a escala o permitisse, escolhi
aquele que dela me ficava mais próximo e com meios de transporte mais acessíveis.
O Posto Territorial de Portalegre.
Apesar
de nas salas contíguas ter feito a instrução onde tinha sido tão maltratado e
por esse mesmo motivo ser ali de toda a gente sobejamente conhecido, continuava
a não ter medo de ninguém e muito menos de encarar sempre que fosse preciso os
responsáveis por tão maus momentos, um dos quais, paredes meias com o posto tinha
o seu gabinete, enquanto o outro frequentemente lá se deslocava. Naquele velho edifício concentravam-se o comando da companhia, o comando da secção, e o posto de Portalegre, três escalões de comando distintos e autónomos, mas hierarquicamente
subordinados uns aos outros.
Não
temi o novo desafio nem tive qualquer problema em escolher aquela colocação, apesar da expectante curiosidade que visivelmente suscitava nos meus camaradas
do efetivo do posto, particularmente nos mais velhos que muito se admiravam, segundo me diziam, da forma estóica como eu
tinha “aguentado” tudo aquilo. Com eles comecei a aprender que a verdadeira
camaradagem, o companheirismo, a tolerância, a generosidade, a solidariedade e
a sabedoria, também existiam na Guarda e em grandes doses, embora muito encapotadas,
muito sóbrias e discretas, para não darem nas vistas nem chamarem a atenção de
quem tinha – no dizer deles - a caneta e o papel para escrever.
O
maior receio de qualquer guarda nesse tempo era que sobre si recaísse uma
“participação” por qualquer ínfima irregularidade que pudesse desagradar aos
“mandantes”. Transferência certa para “cascos de rolha” logo para começar como
medida preventiva e outra vez uma separação interminável da família, para além
do vexame de ver publicadas em ordem de serviço a causa e os efeitos da “porrada”
que toda a gente lia e ficava a saber. Coisas previstas no Regulamento de
Disciplina Militar a que a Guarda está institucionalmente apensa. Mas em meu
modesto entender tudo aquilo era apenas e só a tal castradora disciplina do
medo. Se era! Ninguém se atrevia a protestar fosse pelo que fosse. Ainda bem
que nesse capítulo as coisas mudaram bastante e para muito melhor!
No
posto de Portalegre tive assim o meu primeiro contacto direto com a verdadeira Missão
da Guarda e conheci bons e grandes profissionais para além de generosos
camaradas. Bons na sua experiência de vida e grandes na sua percetível e eficaz
solidariedade, generosos na sua tolerância para com a nossa imaturidade
profissional a qual constantemente colmatavam com os seus sábios ensinamentos e
prudentes conselhos.
Apetecia-me
sinceramente referir aqui alguns deles pelos seus nomes, de tal forma me senti
ajudado naquele já longínquo início da minha carreira como patrulheiro. Encontro-me
hoje e de vez em quando por aí com alguns deles já algo curvados pela idade ou
de bengala, mas sempre dignos do meu imenso respeito e a quem gosto de
cumprimentar com a mesma antiga e sincera camaradagem. Mas não vou citar nomes.
Provavelmente eles não irão ler nunca esta minha mensagem de gratidão, e, além
disso, foram ainda um bom punhado deles esses velhos amigos e comandantes de patrulha
com quem calcorreei, de Mauser às costas e a pé, muitos trilhos da serra de S.
Mamede, azinhagas, carreiros e veredas, hortas e pomares, em redor da cidade de
Portalegre.
De
quase todos eles ouvi histórias da sua vida profissional muito duras também,
percursos longos e com anos de muitos sacrifícios pessoais, colocações
longínquas sem o apoio das famílias, semanas inteiras sem verem mulheres e filhos,
além de terem que trabalhar muitas vezes sob as ordens de comandantes pouco
humanos mas muito exigentes, ou de outros mais compreensivos e tolerantes mas
que mantinham sempre aquela austera postura do “quem manda sou eu”. Relatos
apaixonantes de patrulheiros com muita “tarimba”, inevitavelmente os principais
protagonistas daquilo que é, na sua mais pura essência, o imprescindível serviço
que contínua e diariamente, há muitas décadas, a GNR presta a este país.
Senti-me
muito confortado por quase todos eles e pressentia uma censura implícita e o
repúdio que os seus relatos denotavam, contra a rude forma como eu tinha sido
tratado durante os meses que durou a instrução. Ao partilharem comigo aquilo
que fora a sua vivência profissional anterior, era como se me dissessem por
outras palavras:
-
Como vês, também nós fomos maltratados…
Pouco
a pouco conquistei de todos eles uma sincera amizade e confiança que sempre tentei
honrar. Mas, sobretudo, aprendi imenso. E dessa forma estabeleci raízes tão fortes,
tão profundas e duradouras com a minha nova profissão que me afeiçoei definitivamente
a ela…
José
Coelho in Histórias do Cota