Apaga da tua memória tudo o que não valeu a pena: Quem te mentiu e enganou, quem tentou prejudicar-te, quem usou máscaras e te magoou, quem te utilizou só para conseguir o que queria, quem não soube valorizar-te e nunca chegou a saber quem realmente és.
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Tudo vale a pena
"Tudo vale a pena se a alma não é pequena" é um dos versos mais célebres do poeta português Fernando Pessoa, parte do poema
"Mar Português" na obra Mensagem (1934).
A frase significa que qualquer sacrifício ou esforço é recompensado se tivermos grandeza de espírito, coragem e determinação para enfrentar as dificuldades.
Estória Resumida de um Caminho a Dois
Foi em julho de 1971 que essa caminhada de vida partilhada começou, marcada sempre por desafios e conquistas.
Em Elvas, durante o serviço militar, dois jovens ficaram noivos e logo se viram separados pelas vicissitudes da época: a mobilização para a guerra em outubro seguinte e o embarque para Angola em março de 1972, até ao regresso em junho de 1974.
Foi duro esse período de ausência, mas não quebrou os laços que, pelo contrário, se fortaleceram na distância.
Após o regresso, iniciou-se uma nova etapa, igualmente complexa: encontrar um emprego estável para construir uma família. A noiva, órfã de mãe desde 1971, vivia em casa de uma irmã, enquanto o noivo teve de migrar para longe de casa, em busca de sustento.
Com vidas separadas por centenas de quilómetros e condições precárias, decidiram casar em 1976, depois de cinco anos de noivado.
A decisão foi tomada sem hesitações: porque sim, porque o amor e a vontade de partilhar a vida eram mais fortes do que todos os obstáculos.
Inconformada com a distância e os perigos do trabalho do marido, a esposa perseverou até convencê-lo a mudar de rumo, contando com o apoio da sogra.
Com frases que misturavam preocupação e humor "Não morreste na guerra, vais morrer algum dia naquele “malçoado” buraco!" conseguiram fazer com que ele deixasse as minas e ingressasse numa profissão inesperada, repleta de desafios e mentalidades antiquadas.
Mas nem as dificuldades, nem as armadilhas ou humilhações o fizeram desistir. Pelo contrário, enfrentou os obstáculos com determinação, obteve as melhores notas e continuou a evoluir: ascendeu a cabo e depois a sargento, num mérito conquistado a duras penas porque as habilitações literárias eram as mínimas possíveis.
Quando finalmente regressou a casa com o diploma de sargento da Guarda Nacional Republicana na bagagem, as emoções transbordaram: lágrimas e abraços, no conforto silencioso e terno da companheira. Não recebeu ajudas nem favores, apenas o apoio incondicional de quem cuidou dos filhos sozinha durante três longos anos, enquanto ele se dedicava à formação, longe de casa e da família.
Voltava às sextas-feiras de madrugada e partia aos domingos à tarde, numa rotina exigente que provou a força do seu vínculo, durante três longuíssimos anos.
No fim, as conquistas também pertenciam a quem o incentivou a mudar de vida e enfrentou todas as "alhadas" consigo. Caminham juntos, cúmplices e amigos há já cinquenta e cinco anos.
Não foi um caminho só de rosas, mas também não foi apenas de espinhos.
Como em qualquer vida, houve dias felizes, dias assim-assim e dias menos bons. Mas nunca pararam nem desistiram. Continuaram sempre a caminhar, ultrapassando cada obstáculo, lado a lado.
Esta “estória” culmina numa imagem simbólica: o casal a caminhar juntos, descontraídos, sobre a Ponte do Milénio em Chaves, captados casualmente por alguém sem que se apercebessem.
A harmonia era tal que caminhavam com o passo certo, lado a lado.
Seria só acaso?
Talvez.
Ou talvez não seja acaso, mas a força de uma caminhada feita em conjunto, com amor, persistência e companheirismo.
A “estória” descrita é, antes de tudo, um testemunho sobre o valor de caminhar juntos na vida, enfrentando as adversidades com coragem e união.
Para eles, como para todos vós, o segredo está em nunca parar, nunca desistir e acreditar que cada passo, mesmo quando difícil, faz parte do caminho e vale a pena ser trilhado.
A caminhar juntos desde julho de 1971, casados desde agosto de 1976:
"Contra ventos e marés" (*)
(*) Expressão idiomática que significa superar todas as dificuldades, obstáculos ou adversidades com coragem, persistência e determinação, mesmo perante cenários desfavoráveis ou resistência externa, mantendo o objetivo final, independentemente dos desafios.
terça-feira, 14 de abril de 2026
Levantar a cara e enfrentar, seja o que for
Entendo a Vida como um dom valioso que me foi concedido e tenho o dever de aceitar para fazer valer a pena.
Até mesmo os dias difíceis.
Nem sempre é fácil, nem sempre consigo estar alegre e bem-disposto, mas todos os dias tento superar o que me puxa para baixo e levantar a cara para enfrentar o que me perturba.
Seja o que for.
Cada dia que nasce é também um dia que nos deixa
Acordei cedo, como sempre. A casa que restaurei e ampliei – com amplas janelas traseiras voltadas ao nascente – foi por mim desenhada ao pormenor. Por isso logo que a aurora começa a clarear por terras de Espanha atrás da Murta, a suave luz filtrada pelas persianas e acompanhada pelo cantar dos galos da vizinhança, anuncia o dia.
Não me levanto logo. Já não consigo dormir mais, mas deixo-me ficar quieto para não acordar a “patroa”, enquanto me vou apercebendo do despertar da natureza inteira que rodeia estes meus domínios.
Os pardais, com o seu debicar metálico no algeroz, procuram insetos para alimentar a prole. Já ali construíram um monumental ninho, vingando-se talvez por eu não ter permitido que o fizessem nos tubos do ar condicionado no verão anterior. Pelas redondezas vive também um numeroso bando de rolas-turcas, há muitos anos habitando os sobreiros da Tapada da Rabela, anexa ao nosso quintal.
No ano passado ousaram até nidificar na laranjeira sem receio de o ninho ficar ao alcance das nossas mãos. Pousam nos telhados e nas chaminés, cantam de manhã à noite enquanto vão vigiando os besouros, as espigas da horta e, claro, os baldes de água fresca que diariamente lhes renovo.
Longe vai o tempo em que me levantava às seis da manhã para cortar a barba, tomar um duche e seguir para as minhas obrigações profissionais em Portalegre. Houve dias em que o nascer do sol era precisamente a hora em que terminava a minha ronda noturna na proteção de pessoas e bens. Aí, em vez de acordar, era hora de me ir deitar.
Hoje, vivo outro tempo. Um tempo de descansar, de desfrutar da paz e da tranquilidade deste lugar que para mim é o melhor do mundo: a Toca dos Coelhos. Aqui nasci, aqui vivi os momentos mais doces da minha vida, aqui me despedi dos entes mais queridos. E aqui consigo esta bênção de envelhecer. Não tenho uma vida perfeita – ninguém tem – mas é com toda a certeza a vida mais serena que poderia desejar.
Os problemas de saúde são semelhantes aos de tantos outros. Minimizo-os quanto posso e aceito-os com ânimo e resignação. Queixar-me nada resolve. Vivo um dia de cada vez agradecendo o que tenho e o que ainda posso fazer. Mesmo com limitações, a vida não deixa de ser um dom que me foi concedido e tenho o dever de honrar, até nos dias difíceis. Nem sempre é fácil, mas nunca desisto de erguer a cabeça para enfrentar o que venha perturbar-me.
Os últimos anos mostraram-nos, com brutal clareza, a nossa insignificância perante a força da natureza. Ela sabe defender-se das agressões que lhe fazemos e lembrou-nos, sem cerimónias, a nossa humana pequenez.
Sou dos seus mais fiéis admiradores. Prova disso são os milhares de fotografias que guardo: fauna, flora, paisagens rústicas, céus azuis ou nublados, e, sobretudo as cores do pôr do sol que considero a obra-prima mais perfeita que nos é oferecida diariamente pelo Criador.
Contudo, também me fascinam as cores da aurora, desde surge a primeira auréola rosada, até o astro-rei se erguer no horizonte. Curiosamente o nascer do dia desperta toda a vida com barulho e movimento, enquanto o seu ocaso a silencia por completo.
Poucas coisas admiro mais.
Em cada acordar, agradeço mais esse dia de vida. E antes de adormecer, volto a agradecer o dia vivido. Não por beatice, mas por convicção. Ser grato, atento e disponível, faz parte do meu ADN. Assim vivo serenamente, porque é assim que sou feliz.
E entendo isto: cada dia que amanhece e se soma à nossa vida é, simultaneamente, um dia a menos do total que temos para viver. Essa é, talvez, a equação mais precisa que existe. Lembrem-se dela. E procurem ser felizes, mesmo quando a vida não vos der tudo o que julgam necessário para o serem.
Texto e foto
segunda-feira, 13 de abril de 2026
O apelo da terra
Percorro estas paisagens desde que me lembro de existir. Saltei paredes, subi e desci canchos, perdi-me de propósito nos matagais, nas silvas e nos giestais, sempre acompanhado pelo canto da passarada e pelo murmúrio do vento. Este é o meu mundo íntimo, o único capaz de apaziguar qualquer desassossego. Tudo o que aqui me envolve é harmonia: paz antiga, natureza em estado puro, obra de arte viva que oferece ao mesmo tempo, música ao vivo, cores irrepetíveis e perfumes que parecem saídos da própria criação.
Na Primavera o amarelo intenso das maias das giestas negrais desafia a alvura das giestas alveirinhas e das rendilhadas flores dos pilriteiros - por aqui chamados carapeteiros. O ar enche-se do perfume inebriante que delas se desprende, misturado com o aroma do rosmaninho e de uma infinidade de lírios e flores silvestres que pintam o campo como um quadro sem moldura.
Não conheço templo mais belo, nem lugar onde me sinta tão próximo do Criador e tão parte do Universo.
Foi por estes caminhos que os meus saudosos avós viveram e foram felizes; por aqui os meus pais se encontraram e uniram para toda a vida. Nestes campos, a minha avó, a minha mãe e tias mondaram trigos, sacharam milhos, cantaram alegrias e choraram tristezas, deixando na terra o suor do cansaço e as lágrimas que a dor lhes arrancava.
Também aqui o meu avô, o meu pai, tios e primos guardaram rebanhos, lavraram a terra com charruas e arados puxados por vacas e muares, semearam e colheram pão, frutos e legumes.
Estas paisagens são-me tão naturais como a própria pele. Por isso sou rústico como elas. Sempre que a vida me apertou, refugiei-me na sua solidão benfazeja à procura de paz, de equilíbrio ou das respostas que só o silêncio da terra sabe dar.
Passei horas a caminhar sem destino por cabeços e covas, tantas vezes sem dar conta do tempo. Outras vezes sentava-me no alto dum cancho a ouvir o pasto estalar com a correria de algum animal bravio que sempre abundaram por estas paragens.
Lá longe, na guerra, quando senti que podia não regressar depois de tombarem camaradas, prometi a mim mesmo que se voltasse, nunca mais daqui sairia. E quase cumpri a promessa. Assim que regressei - por isso agradecerei até ao fim dos meus dias - voltei inúmeras vezes a estes lugares para matar saudades e beber de novo a sua paz. Só me ausentei para cumprir a missão de chefe de família, porque aqui não era possível.
Mas voltava sempre.
E assim que pude, regressei de vez. Continuo por cá, apesar de tudo estar tão diferente. A vida levou entes queridos, bons vizinhos, e até o quotidiano de outrora se extinguiu. Restam-me as memórias. E aquele silêncio que antes só se “ouvia” nos sítios ermos agora habita pelas casas e ruas de todos os povoados, fazendo-nos companhia dia e noite.
Ainda assim, e enquanto me couber decidir, é aqui que quero terminar os meus dias: a deslumbrar-me com cada pôr do sol, a enternecer-me com o trru-trru das rolas, a encantar-me com a ousadia dos melros, pintassilgos e outros alados vizinhos que insistem em encher de ninhos as árvores do nosso quintal, confiantes de que ninguém os irá incomodar.
José Coelho
Foto Maria Coelho
sábado, 11 de abril de 2026
Reflexão para hoje
Há olhares que não nos admiram, apenas nos medem. Há sorrisos que não cativam, apenas disfarçam. A inveja não é do que temos, mas do que somos e da luz que transportamos sem precisar apagar a de ninguém.
No início, perguntava-me: porque é que as pessoas são assim? Mas hoje entendo que a inveja não é sobre mim, é pelo vazio das suas próprias vidas que não conseguem preencher. Não lhes guardo rancor.
Sigo o meu caminho com a alma leve, o coração inteiro e a certeza de que o que é verdadeiro não se altera pelo olhar alheio. A nossa essência não é sombra, é sol. E o sol não se apaga.
Foto José Coelho
* 11. 04. 2026
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