sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Bom Fim de Semana


Hoje quando o passado me bate à porta não o atendo mais, não paro sequer para lhe responder e continuo o meu caminho sem lhe prestar atenção.

Aprendi que quando tudo desaba e a vida me desafia está apenas a lembrar-me que o tempo que me resta é para ser vivido e não desperdiçado.

Tenho anos suficientes para saber que o passado não é um peso para carregar, mas sim uma lição para aprender.

Não se vive dele. Cresce-se com ele.

Não apago o que fui nem nego o que vivi, mas aprendi que há guerras que só vencemos quando temos coragem de as abandonar.

E que a verdadeira sabedoria é…  

Seguir em frente.

                                       José Coelho

Princípio e fim. Tão natural um, como o outro.

No dia 16 de julho do corrente ano irão cumprir-se oitenta e três anos que esta Ilustre Senhora e o Seu Divino Filho vieram “viver” para a Beirã. Na sua igreja fui batizado há 73 e há 68 comecei a trabalhar na Sua Casa, investido nas funções de acólito pelo padre Joaquim Caetano a quem até hoje me liga um vínculo muito forte de respeito e amizade apesar de ele já não se encontrar entre nós.
Foi a sua bondade e exigente postura que me ajudou a ser um homem de bem. Ser-lhe-ei por isso grato e reverenciarei a sua memória enquanto viver.
A Vida levou-me muito jovem para longe desta minha segunda Mãe por períodos mais ou menos longos. Ainda assim só mesmo os 8.000 km de distância resultantes da mobilização para o outro lado do mar, me impediram de estar presente no dia 16 de julho, naqueles dois longuíssimos anos de 1972 e 1973.
Mesmo tão longe nunca a Senhora se separou de mim, quer do íntimo do meu coração, quer porque andava no meu bolso dia e noite na forma de uma estampa de cartolina plastificada que me acompanha até hoje, já meio desfeita pelo uso e enorme quantidade de tempo que, entretanto, passou pela estampa e por mim.
Quando em 1993 regressei definitivamente “a casa”, nunca mais arredei pé de junto dela e tenho-me esforçado por dar o meu melhor nas celebrações litúrgicas como salmista, leitor e coro paroquial, assim como no Conselho Económico Paroquial ao qual fui chamado desde 1999.
Sinto-me por isso muito em paz e de coração tranquilo cada vez que contemplo o sereno rosto da Divina Mãe que docemente me contempla lá do alto. Infelizmente, como em tudo o resto nesta aldeia, também ali se sente já o rarear da presença humana, quer nas celebrações semanais quer nas festivas, que antigamente juntavam em seu redor centenas de devotos.
Às vezes, em dias mais inquietos, necessito ir ter com Ela. Porque tenho uma chave da igreja e porque infelizmente deixou de ser seguro mantê-la permanentemente aberta para que pudesse livremente entrar quem quisesse ir rezar a qualquer hora, como antes, desço a rua e vou lá. Entro, e, a sós com Ela, fico longos momentos naquele reconfortante silêncio, bastando-me a proximidade do seu meigo olhar para que o meu espírito se aquiete e a paz desça sobre mim.
Não sou, obviamente, indiferente à presença do Senhor Jesus no sacrário e sei, porque me foi meticulosamente ensinado em muitas horas de formação cristã nos últimos anos, que em qualquer templo onde esteja presente o Santíssimo Sacramento do Altar é Ele que deve ser sempre adorado e exaltado em primeiro lugar, antes de qualquer outra presença divina, seja a Sua Mãe Santíssima, seja qualquer outro Santo ou Beato.
Porém e pese embora todos esses ensinamentos, o Senhor que me perdoe – sei que perdoa – todos nós ao entrarmos na igreja damos de caras com o terno olhar da Senhora Sua Mãe e não conseguimos – por mim deduzo – pensar primeiro no Senhor Jesus que ali está também no sacrário
Escrevi no primeiro parágrafo deste texto que ando por ali há já 68 anos. É de facto muito tempo. A minha geração que em 1958 enchia o templo de orações, de vida e atividades, partiu já quase toda para a eternidade. Não estará por isso muito distante a minha vez de ir ter com eles.
É absolutamente normal, porque, sendo pó, ao pó regressaremos. Sem dramas, sem espantos, sem medo algum. Cumpre-se apenas o ciclo – princípio e fim – natural de toda a vida terrena, do qual temos perfeito conhecimento e para o qual devemos estar permanentemente prontos e preparados.
E eu, estou.
Nota:
A imagem que ilustra este escrito foi da autoria do reverendo Pároco e meu digníssimo Amigo Luís Ribeiro – já falecido – por ocasião do 70º Aniversário da Inauguração da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Carmo - Beirã, que me o ofereceu em mão no dia 16. 07. 2013.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Aproveitando o bom tempo


Atrás de mim, naquele outeiro à esquerda da foto, oculto por alguns sobreiros e carvalhos está o velho Chafurdão da Meirinha.
No meio do terreno junto do caminho, pode ver-se também um dos marcos de madeira da Rota do Megalítico, a indicar o percurso e proximidade da Anta da Cavalinha, nas imediações.
Adoro a minha Freguesia de Beirã e o meu Concelho de Marvão.

26. 02. 2026

Bendita fartura


Nascente de água viva a brotar da rocha entre o lugar da Murta e o da Anta no CM 1024 mais conhecido por Estrada da Herdade dos Pombais - Beirã.

Vídeo José Coelho 
26 fevereiro 2026

Palavras leva-as o vento


O que nos define são as nossas atitudes, porque palavras leva-as o vento, diz a máxima bastante conhecida com a qual concordo em absoluto. Pode uma pessoa proferir frases muito belas e argumentar com muita veemência, mas a forma como vive e aquilo que faz é que define e revela quem ela é e o que transporta no coração.
O mundo anda envolvido num limbo de turbulência e desmantelamento da ordem e dos valores, que ensombra perigosamente um futuro a necessitar aflitivamente de amor, de respeito, de empatia e de repararmos uns nos outros, para percebermos que somos parte de um todo.
A vida acontece também fora de nós e estende-se muito lá da nossa zona de conforto.
Precisamos e devemos cuidar do que somos, bem como dos nossos sentimentos, mas se só nos preocupamos com o eu, estamos a negligenciar completamente o nosso papel na sociedade, a nossa capacidade de nos relacionarmos e de fazermos a diferença na vida uns dos outros.
Cada pessoa tem a sua forma de comunicar com o Deus em que acredita para se sentir bem. Contudo, apesar de frequentarem igrejas, mesquitas e os mais diversos cultos, todos os dias assistimos a cenas de total falta de compaixão pelo próximo.
Nem sequer os mais frágeis escapam – doentes, crianças, idosos – que, pelo contrário, são sempre os mais castigadas por essa onda de impiedade coletiva.
Depois, lado a lado com a violência explícita, existe também a violência velada, implícita, indireta e extremamente prejudicial: o desprezo, o silêncio diante do mal e muitas outras atitudes que revelam maldade em toda a acepção da palavra.
Pessoas há também que conseguem ser melhores na rua, do que em casa. Encenam uma figura bondosa em sociedade mas nos seus lares são um verdadeiro inferno porque tratam mal os seus familiares das mais variadas formas.
Muitas pessoas se contradizem diariamente fingindo o que não são e por isso tentam expiar as suas culpas nos locais sagrados fazendo caridade por obrigação, na tentativa de receberem o perdão, porque têm consciência plena do mal que fazem.
Mas de que adianta rezar, se continuam a praticar os mesmos erros?


Venho dos lados da aurora
Onde vi nascer as fontes
Entre o naufrágio de sonhos
Perfumados de horizontes.

Trago imagens de papoilas
E a fogueira das queimadas.
Os meus olhos já não podem
Olhar as terras lavradas...

Que caminhos de aflição
Onde as nuvens se juntaram,
Erguendo escuras bandeiras
Que à noitinha desfraldaram!

Venho do Sul, do meu povo,
E trago os ventos roubados
À natureza onde vivem
Os camponeses cansados.

Mas também trago a saudade
Das formosas madrugadas:
As cantigas do meu povo
Que em surdina são cantadas.

Antunes da Silva

Nascer do sol na Beirã

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Escolhas que nos curam


Ir embora de alguns lugares, também é cuidar de si. Afastar-se de algumas pessoas, também é proteger-se e fechar algumas portas também é uma forma de amor. 

Nem todas as atitudes significam abandono ou cobardia, mas apenas amor-próprio. Aprender a reconhecer o momento certo de ir embora é um sinal de maturidade e respeito pelos nossos limites. 

Ao escolher o que nos faz bem, cultivamos uma relação mais saudável conosco mesmos e criamos espaço para oportunidades e experiências que estão verdadeiramente alinhadas com os nossos valores.

José Coelho

Para quem não souber e queira saber

Quaresma - São Quarenta dias. Tempo Forte de Conversão; Penitência, Jejum, Esmola e Oração, tempo de refletirmos no extremo Amor de Deus, que entregou Seu Filho Único, Jesus, que, Obediente ao Pai, morreu numa Cruz, para Salvar Todos nós.
Nos quarenta dias da Quaresma, não se coloca flores na Igreja, não se canta Aleluia, nem o Glória. Também não se usa muitos instrumentos musicais, para que, no Domingo de Páscoa extravasemos nossa Alegria, Cantando, Tocando e Louvando Jesus Nosso Deus de Amor, que morreu e Ressuscitou por Todos nós, para que tenhamos a Vida Eterna.
Na Semana Santa, cobre-se as imagens da Igreja com um pano roxo. (Infelizmente algumas Igrejas, que cobrem as Imagens, e colocam cartazes que Não tem nada haver com Quaresma /Conversão muitas vezes são questões meramente política .)
A Quaresma começa na Quarta-feira de cinzas e vai até o Domingo de Ramos. Ainda no Tempo da Quaresma entramos na Semana Santa.
Na Quinta-feira da Semana Santa, começa o Tríduo Pascal.
Para bem Celebramos a Páscoa, a Igreja nos oferece o Tríduo Pascal.
Quinta-feira, Dia da Ultima Ceia de Jesus e Seus Discípulos, antes de Sua Morte e Ressurreição , Dia em que Jesus Instituiu a Santíssima Eucaristia e o Sacerdócio. Nesta noite, Jesus sendo o Senhor lavou os pés dos Discípulos, nos Ensinado a Humildade, Principalmente aos que Evangelizam.
Sexta-feira Santa Celebramos a Paixão e morte do Senhor Jesus Cristo, este é o único dia em que na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, Não se Celebra a Santa Missa. Acontece apenas a Celebração da Liturgia da Palavra e a Comunhão da Eucaristia deixando apenas a Eucaristia do Ostensório.
Sábado Santo - Durante o dia a Igreja, isto é, os Fiéis permanecem em Silêncio, refletindo a Paixão e Morte de Jesus.
Na noite de sábado, inicia-se a Celebração com a Benção do fogo, e no decorrer da Santa Missa a Benção da água. Normalmente esta Santa Missa termina nas primeiras horas de domingo, e ao Cantar o Glória, Festejamos a Ressurreição de Jesus. Terminando assim o Tempo de Quaresma. E entramos no Tempo Pascal.
Tempo Pascal - A cor do Tempo Pascal é branco.
No Domingo da Pascoa, comemoramos a Ressurreição de Jesus. Todos os dias durante cinquenta dias, isto é, do Domingo de Pascoa até o Dia do Pentecostes, Dia em que Jesus enviou o Espírito Santo, aos Seus Discípulos de Ontem de hoje e de Sempre, e envia para Todos os Batizados e onde o Espírito Santo quiser.
Assim o Tempo Pascal, vai do dia que comemoramos a Ressurreição de Jesus, até o dia de Pentecostes.

Site Católicos Pela Fé

Fiel a mim mesmo


Vivemos uma época em que somos constantemente desafiados pelos acontecimentos à nossa volta. Notícias, experiências pessoais e situações inesperadas colocam muitas vezes à prova a nossa capacidade de manter a esperança, a bondade e os valores em que acreditamos.
Ainda assim continuo a acreditar que o bem, por mais obscuro que possa parecer, encontra sempre uma maneira de se manifestar e de regressar às nossas vidas.
Possuir um coração bondoso é um ato de coragem. É fácil deixar que as adversidades endureçam os nossos sentimentos e aos poucos nos tornem mais distantes da nossa essência. Contudo, é justamente nesses momentos que ao resistirmos à tentação de endurecer, demonstramos a nossa verdadeira força.
A bondade não é sinal de fraqueza, mas de uma postura consciente perante o mundo, um compromisso diário de não nos perdermos, mesmo quando tudo parece conspirar contra.
Existem coisas que não se negociam. Os nossos princípios, assim como os valores pelos quais guiamos as nossas escolhas são âncoras no meio das tempestades. Eles recordam-nos quem somos e no que acreditamos mesmo quando pressionados a agir de modo contrário.
Romper com esses princípios seria perdermo-nos e permitir que o mundo nos moldasse, em vez de continuarmos a ser donos da nossa própria história.
Ser fiel a si mesmo é um desafio diário. Em muitos momentos, surge a tentação de agradar aos outros, ou de adaptar as nossas atitudes para sermos mais bem aceites ou compreendidos. No entanto, a verdadeira paz vem de sabermos que, independentemente das circunstâncias, permanecemos autênticos, sem abrir mão da nossa essência.
A integridade pessoal é um tesouro que não tem preço e que ilumina o nosso caminho, mesmo nas horas mais difíceis.
Acreditar no retorno do bem, manter o coração aberto e proteger os nossos princípios são atitudes que nos ajudam a atravessar as tempestades da vida sem perdermos a direção. Por mais que o mundo tente endurecer-nos, vale a pena resistir e continuar a ser quem somos.
No fim, talvez o maior triunfo seja mesmo esse: seguirmos o nosso próprio caminho com coragem, verdade e bondade, sem nos perdermos para agradar a outrem.

José Coelho

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

(Matur)idade


A nossa vida muda com a idade. Deixamos de aceitar conflitos e de dar explicações seja a quem for.

Optamos por rodear-nos de cada vez menos pessoas, começamos a eleger o silêncio e a escolher a ausência para nos dedicarmos apenas ao que nos concede paz.
Começamos a ver as coisas como elas são e cada vez menos como parecem, a preservar o melhor de nós só para quem nos conhece e estima.
Aprendemos a ficar calados e a abrir mão de muitas coisas, a selecionar o útil e o fútil porque tudo o que é inútil deixa de nos importar.
Livramo-nos de muitas coisas: palavras, pessoas e objetos para ficarmos apenas com o que nos torna melhores.
Em resumo aprendemos a deixar ir o que tem de ir e a aceitar o que veio para ficar.

Porque...


Nem o tempo volta, nem a vida se repete.
Boa semana, sejam felizes...

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Não entendo e muito menos aceito


Sempre ambicionei passar o resto da minha vida exatamente onde me encontro. Mas também nunca, nem pela mais remota hipótese podia imaginar que as coisas iam descambar desta forma e iria ficar por cá quase sozinho. Se é natural que a vida siga o seu ciclo geracional porque sempre assim foi, já não é, de todo, natural que esse ciclo, como aqui, se esteja a extinguir porque não nasce vida nova que venha substituir a que vai partindo.
Se em pouco mais de duas décadas tudo ficou desta maneira, como será daqui a outro tanto tempo? Há tempos fui com a minha companheira dar um passeio à Herdade do Pereiro e à Fadagosa, dois dos bonitos locais da nossa infância e juventude. Aquilo que vimos sem qualquer surpresa, é de tal modo deprimente e desolador que um de nós desabou em lágrimas. Não fui eu quem chorou, mas imaginei imediatamente que daqui a não muitos mais anos, na Beirã também haverá casas assim, em ruínas.
É só uma questão de tempo e oxalá me engane.
A única hipótese de nos sentirmos vivos e de ver alguma vida ou movimento é sairmos da Beirã com alguma regularidade. Por isso vamos até à cidade ou vila que elegemos na hora, de vez em quando. Mas até as vilas, até a cidade, já não são as mesmas. Pouca gente nas ruas e praças, porque a onda de abandono alastra um pouco por toda a parte. Na cidade e nas vilas mais próximas, como na minha aldeia, há também casas fechadas um pouco por todas as ruas.
Quem e como irá conseguir reverter esta situação?
Obviamente, ninguém!
Não consigo perceber por mais que tente. Porque é que há 50 anos sob a tão amaldiçoada ditadura havia gente por toda a parte, trabalho para todas as profissões e negócios, e ainda, apesar dos baixíssimos salários, muito mais oportunidades de trabalho do que existem agora na tão falada democracia que tudo trouxe em velocidade de cruzeiro mas ainda mais velozmente tudo tem ido levando, deixando milhares de pessoas desempregadas ciclicamente e uma geração inteira sem grandes perspetivas de futuro que por isso mesmo começou a emigrar em massa mais uma vez, repetindo-se o êxodo das décadas de 60/70 do século passado.
E o desfile imparável, infindável, de falcatruas públicas cometidas por quem deveria ser exemplo? E a impunidade de tantas e tantas dessas falcatruas já denunciadas e provadas, mas cuja culpa morre quase sempre solteira? E o compadrio, a corrupção vergonhosa, os arranjinhos em prejuízo da competência e do direito à igualdade de oportunidades? Será esta a vida, a sociedade, o futuro, que os nossos filhos e netos necessitam e merecem?
Quantos pais e avós vivem inquietos com as mesmíssimas interrogações que eu vivo? Todos nós fomos educados num tempo em que havia respeito pelas regras da vida e da ordem social. Para onde foram esses valores? Aposto que a maior percentagem de pessoas com a minha idade não é feliz com o estado a que as coisas chegaram. Já ninguém se sente seguro.
Os empregos de repente viram desemprego. As reformas descontadas uma vida inteira em vez de crescerem encolhem pela subida sistémica do custo de vida que de anual passou a mensal. Até as poupanças de uma vida de trabalho e sacrifícios podem inesperadamente desaparecer de um qualquer banco que também abre falência mercê da ganância e irresponsabilidade de quem os gere.
Algum de vocês entende tanta impunidade, tanta aldrabice, tanta irresponsabilidade, tanta falta de competência para devolver segurança, tranquilidade e paz de espírito a quem ama o seu país e nele sempre viveu, a ele deu sempre o seu melhor, e por fim, depois de uma vida inteira de luta, de trabalho e sacrifícios, nele queria, merecia e deveria envelhecer rodeado de paz, de respeito e de humana dignidade?
Eu não.
Não consigo entender e muito menos aceitar.

José Coelho

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Bom fim de semana



Escolher ficar em silêncio é uma opção de último recurso quando o meu equilíbrio e tranquilidade emocionais decidem deixar de tentar entender coisas que nunca estiveram ao alcance da minha compreensão e aceito isso, por mais que me custe.
Cedo ou tarde, o meu silêncio acabará por ser também entendido como uma resposta clara e definitiva.

Da dureza do passado à serenidade do presente


A vida apresenta-se muitas vezes um caminho marcado por desafios e obstáculos. Há quem veja as dificuldades como motivo para lamentações. Outros porém aprendem desde cedo que levantar-se após cada queda é uma parte essencial do processo de crescimento. Esta minha reflexão pretende abordar a importância da resiliência, da autossuficiência e da autenticidade na formação do carácter, exemplificada através de experiências pessoais e familiares.
Não sou e nunca fui dado à pieguice. A época em que nasci e me criei era tão dura e agreste que assim que aprendi a andar em pé tive logo de aprender também a levantar-me sozinho cada vez que tropeçava. Ninguém ia a correr dar-me mimo ou colo. “Caíste? Levanta-te, filho!” Esta frase comum à minha infância não era sinal de falta de afeto, mas uma lição de vida transmitida com carinho. Os meus pais ensinaram-me que cair faz parte do percurso e que o essencial é levantar e enfrentar cada adversidade com coragem e ousadia.
Cresci, aprendi e formei-me nessa disciplina de uma forma tão sólida que me valeu para a vida toda. Procurei transmitir aos meus filhos esses mesmos valores: levantarem-se após cada tombo, serem prudentes para não tropeçarem duas vezes na mesma pedra, evitarem caminhos acidentados e inseguros, porque esses princípios são fundamentais para se sobreviver num mundo cada vez mais complexo, conferindo força e lucidez diante das tempestades da vida.
Viver não é fácil nem sequer para quem nada lhe falta. A abundância material nem sempre garante felicidade; há quem viva rodeado de riquezas, mas na solidão, sem amor ou afetos. A imprevisibilidade da vida exige atenção e preparação para o inesperado. Basta um olhar à nossa volta para percebermos as contradições e desigualdades que nos rodeiam.
Recordo os tempos em que andava descalço por falta de sapatos e tinha de esperar embrulhado numa manta ao lume que a minha roupa secasse, porque só tinha aquela. Na mesma freguesia existiam grandes herdades e palácios, hoje em ruínas porque os seus herdeiros não têm meios para os conseguir conservar. Ao contrário deles, com muito esforço e poupança eu consegui transformar a humilde casa onde nasci numa moradia capaz de acolher toda a família. Essa conquista foi fruto da persistência e da recusa em desistir perante as dificuldades.
Tudo o que escrevo ou digo está profundamente ligado à minha história, à minha família e às experiências que vivi. Recuso-me a preocupar-me com as opiniões alheias porque não devo nada a ninguém, por isso sou livre para dizer o que penso. Os tombos da vida deixaram muitas marcas, principalmente aqueles que foram provocados por rasteiras traiçoeiras que me feriram mais a alma do que o corpo. Contudo, todas as vezes que me faziam cair me levantava mais resiliente, persistente e determinado a seguir o meu caminho.
Vivo hoje em paz, tranquilo e blindado contra qualquer tentativa de perturbação. Quem pense o contrário, desengane-se. Ninguém tem poder ou força suficientes para abalar a serenidade que conquistei através de tantas lutas e superações.
É esta tranquilidade, fruto da coragem de conseguir levantar-me sempre, da honestidade de viver para mim e para os meus, da sabedoria de ignorar aquelas vozes que nada acrescentavam ao meu percurso, que desejo também para todos vós.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Contrabandistas

Trilhos da raia Beiranense - Foto José Coelho


Onde há raia houve com certeza contrabando e contrabandistas. E houve também, como não podia deixar de ser, muitas peripécias contadas pelas pessoas que na escuridão da noite caminhavam pelas veredas entre matos e canchais em direcção à fronteira, a qual na nossa freguesia é toda limitada pelo rio Sever.

Tive a sorte de conhecer muitos desses valentes, alguns da minha família mais próxima, por sinal homens respeitáveis, sérios, de poucas falas e ainda menos sorrisos. Sei muitas histórias que ouvia deliciado, narradas por essa gente simples e pura que deliberadamente infringia as leis, mas com a única e julgo que aceitável intenção de ganharem o sustento das numerosas proles de seis, sete, oito e às vezes mais filhos a seu cargo, e, por isso mesmo, sem qualquer intenção malévola, premeditada ou criminosa, de desafiarem à toa a autoridade do Estado.

Para eles, transportarem aquelas pesadas cargas às costas no escuro da noite, debaixo de bom tempo ou de invernia, terem ainda que atravessar as correntes e enchentes do rio Sever semi-nus com carga e roupa sobre a cabeça para não as molharem, mais não era que uma “profissão” bastante arriscada, e que, por isso mesmo, era muito mais bem paga do que qualquer outro serviço rural que pudessem desempenhar por estas terras pobres onde a agricultura foi quase sempre de subsistência.

Eu próprio e a minha irmã mais velha fomos também contrabandistas ainda que em pequena escala e por conta exclusiva dos nossos pais que nos mandavam levar para Espanha certos produtos – 3 ou 4 dúzias ovos por exemplo – em   troca de coisas que trazíamos na volta para cá, essencialmente víveres de primeira necessidade como por exemplo latas de azeite, toucinho a granel, pão e conservas. Também uma boa parte dos enxovais das minhas irmãs – louças de pirex, esmaltes, sertãs e outros utensílios de cozinha – vieram de Espanha por essa via. Aos poucochinhos. Numa semana trazíamos o tacho, na outra semana a cafeteira, depois a frigideira…

Porém os profissionais das madrugadas caminhavam curvados pelo peso de 30 kg de carga, acompanhados sempre pelo receio de serem detectados pelos guardas fiscais portugueses ou pelos guardas-civis espanhóis. Com os olhos tinham que vigiar o caminho e com os ouvidos escutar atentamente qualquer ruído que os pudesse alertar da proximidade dos fardados para que não lhes saltassem ao caminho, porque, se tal acontecesse, era largar a carga, desatar a fugir e esconderem-se logo que pudessem. Perdiam o fôlego, perdiam a carga, perdiam a jorna da noite, perdiam também o esforço de muitas horas de caminho. Mas outras viriam! O que interessava era não se deixarem “ganfar” pelos guardas porque seriam imediatamente presos e teriam mesmo problemas mais sérios.

Era assim por todas estas aldeias e lugarejos da raia. Beirã, Cabril, Bica, Pereiro, Barretos, Vales, Vale de Milho, Ranginha, Cabeçudos, Relva da Asseiceira, Aires, Tapadão de Mato e muitos outros, porque nesse tempo era tudo habitado onde quer que houvesse uma casinha, por mais isolado que fosse o lugar. Ao escurecer formavam-se os grupos no local de encontro que só eles sabiam, traçavam-se os percursos, vigiavam-se os movimentos dos guardas e desaparecia-se na noite para se ganhar o preço previamente negociado.  Assim que os mais novos tinham forças para “alombarem” com as cargas e pernas para caminharem longas distâncias, entravam para o grupo. Era assim com eles, porque assim tinha sido com os seus pais e avós, assim seria provavelmente também mais tarde com os seus filhos e netos.

Mulheres contrabandistas também as havia e muitas, se bem que com cargas mais leves. E também elas atravessavam rios e ribeiros nas noites de chuva ou de bom tempo para ajudarem no sustento das casas se fosse preciso. Muitas vezes vi a minha mãe e as minhas tias enrolarem-se em peças de “pana” aquilo a que hoje chamamos bombazina para assim passarem, debaixo das suas roupas, metro a metro, peças inteiras do tecido que iam trazendo aos poucos das lojas do outro lado do rio; da loja "do Batão", da "do Bravo", ou "da do Pinadas", que eram fornecidas directamente aos alfaiates das aldeias para as transformarem em calças, casacos ou fatos completos muito apreciados nesse tempo por serem mais quentes e durarem muito mais tempo que os tecidos portugueses.

Vi, "com estes dois olhos que a terra há-de comer" alguns vizinhos guardas fiscais e guardas-civis espanhóis também, a ajeitarem um quilo do café em grão da marca “Guapa” em cada um dos bolsos laterais dos casacos das suas fardas, na loja do sr. João Batista e na loja da Ti Zabel, minutos antes de embarcarem nos comboios que iam patrulhar entre a estação da Beirã e a de Valência de Alcântara. Eles próprios praticavam o contrabando – eu vi, como já afirmei, ninguém me contou – provavelmente porque os seus ordenados não seriam por aí além muito famosos.

Contrabandeava-se um pouco de tudo nesse vaivém constante pela raia. Mas o contrabando puro e duro eram as cargas de volfrâmio – nas barreiras do rio Sever perto do Matinho ainda se podem ver os buracos deixados pela exploração desse minério – também de especiarias como a canela e os cominhos, de relógios de pulso, de tabaco, de papel de fumar, de máquinas de costura e até de gado, sendo essas práticas as que estavam sob a mira mais atenta das autoridades.

É preciso não esquecer que esta comunhão entre os dois países não fez passar apenas pela raia cargas às costas, fez também passar todo o tipo de contactos e intercâmbios pessoais e culturais. A minha sogra nasceu na aldeia de S. Pedro da comarca de Valência de Alcántara em Espanha e casou com o meu sogro, natural dos Barretos-Beirã-Portugal. Os irmãos do meu avô materno são todos espanhóis pois só ele casou por cá com a minha avó. Mas também a toponímia e a linguagem ganharam pronúncias próprias porque muitas palavras portuguesas "espanholaram-se" enquanto muitas palavras espanholas se "aportuguesaram". Até a gastronomia misturou sabores do lado de cá e do lado de lá da fronteira.

O contrabando foi ainda, como já disse, feito de muitas histórias. Cada contrabandista, cada guarda-fiscal, cada guarda-civil e cada caminho percorrido por estas gentes, tem as suas. De dia era terra de camponeses, à noite de contrabandistas. Na mesma aldeia viviam, lado a lado, guardas fiscais e contrabandistas, as duas faces antagónicas do contrabando. Conviviam e ocupavam os mesmos espaços quer nas aldeias, quer nos caminhos percorridos. Espreitavam-se com astúcia e engenho tentando cada um, na defesa do seu mister, enganar o outro.

Ambos conheciam os caminhos - muitos guardas fiscais eram desta zona, filhos até de contrabandistas e, na sua adolescência, antes de ingressarem naquele organismo policial, teriam andado por aí com algumas cargas às costas também, sabendo, por experiência própria, muitos dos truques e estratagemas que agora lhes eram úteis, mas por motivos diferentes. Assim, enquanto uns vigiavam atentamente caminhos e veredas, os outros percorriam-nos, conseguindo ludibriar sorrateiramente tal vigilância, trazendo e levando mercadorias que alimentavam o comércio de ambos os países. 

Curiosamente, esses caminhos eram o sustento de todos. De uns e dos outros.

Hoje já não há contrabando, pelo menos o praticado nos moldes aqui referidos porque deixou de haver necessidade de vigiar a fronteira. Os guardas fiscais foram extintos, os contrabandistas envelheceram e os caminhos deixaram de ser percorridos, nada mais restando desses trilhos. O silêncio da noite por esses canchais só é perturbado agora pela actividade dos javalis, dos saca-rabos e raposas que por aí vagueiam em busca de alimento.

Acabaram-se pois as aventuras e as histórias. Inevitavelmente as memórias de tudo isso ir-se-ão perdendo. Memórias comuns a todas as aldeias e lugares da nossa zona raiana onde existiu esse contrabando, que foi, acima de tudo, o pão que alimentou muitas bocas. E os contrabandistas foram protagonistas relevantes desse período não ainda muito distante da nossa história colectiva que seria justo preservar. 

José Coelho in Histórias do Cota