Crescer no seio da humildade, para muitos é sinónimo de privações; para mim foi fonte de ensinamentos que transcenderam o valor material. A vivência humilde ensinou-me a relativizar a importância do vil metal e a reconhecer felicidade noutras pequenas coisas.
Aprendi cedo que a riqueza não se mede pelo dinheiro que se tem na carteira ou no banco, mas pelo calor humano e pelos laços familiares que se criam. Foi na simplicidade dos dias e na ausência de bens supérfluos que descobri o verdadeiro significado de partilha e solidariedade, lições que continuam hoje ainda a nortear o meu caminho.
Para quem não viveu essa realidade pode parecer impossível conseguir ser feliz onde há pouco. No entanto em nossa casa a abundância era de alegria e boa disposição. A minha mãe com seu sorriso sempre pronto a servir, tornava qualquer tarefa diária – fosse a fazer o jantar, ou a remendar as nossas roupas – em momentos alegres e luminosos.
Era nesses instantes que se construía uma cumplicidade inabalável entre nós. O tempo parecia abrandar todas as dificuldades quotidianas para nos oferecer a oportunidade de rirmos, conversarmos e, acima de tudo, estarmos verdadeiramente presentes uns para os outros.
Pensamos que a vida melhorou, mas será que, de facto, somos agora mais felizes? Com tanto conforto e tecnologia que nos rodeiam noto que muita gente perdeu a capacidade de se maravilhar com as coisas simples.
Por isso olho sem certeza se este “agora” é realmente superior ao “d’antes”. Sinto falta das pequenas alegrias, como ver a minha Florinda sentadinha de mantinha sobre as pernas aconchegada no sofá da sala, ceguinha pela retinopatia diabética mas com ouvido muito apurado, a cantarolar e a bater ritmadamente os pés ao som das músicas que a tv emitia e lhe eram familiares.
A memória desses momentos aquece-me o coração e recorda-me que mesmo diante das adversidades é possível encontrar motivos para sorrir e agradecer. A força e a ternura dos mais velhos ensinam-nos a dar valor ao essencial: a saúde, a presença, o afeto.
Gestos simples, quase invisíveis na altura, são agora tesouros de saudade, provas de que a felicidade pode florescer mesmo numa vida marcada pela velhice e perdas físicas como eu vi na minha mãe que mesmo sem vislumbrar a mais ínfima centelha de luz continuava a sorrir, a cantarolar e a bater o seu pezinho ao ritmo das melodias que a alegravam.
Desse ambiente herdei o meu estado de espírito tranquilo e uma gratidão imensa. Sou completamente desapegado do dinheiro e de bens materiais dispensáveis, que muita gente considera essenciais. Não me preocupo com luxos, marcas ou tendências de roupas, visto o que me agrada, comprado na feira ou numa loja de marca.
Esse desapego libertou-me de muitas ansiedades e permitiu-me perceber que o verdadeiro luxo é viver sem pressa, mas principalmente sem a constante necessidade da aprovação dos outros. A liberdade de sermos autênticos vale mais que qualquer etiqueta.
Prioridades para mim, são outras coisas muito mais banais: jantar em casa com a família vale mais do que qualquer experiência gastronómica num restaurante com estrelas michelin; aprecio mais a simplicidade de umas belas migas de pão extremenhas com sardinhas fritas, do que qualquer mariscada. O modo simples como cresci moldou esta minha forma de ser e de viver pela qual dou graças todos os dias da minha vida.
Vivemos, infelizmente para todos nós, tempos complexos, incertos e imprevisíveis, não faz sentido tornar a vida ainda mais difícil com preocupações que não nos acrescentam nenhum valor. Sabemos quanto ela é breve, mas insistimos em viver como se fossemos eternos, perseguindo riquezas materiais em detrimento da verdadeira felicidade.
Para mim e por enquanto a vida mantém-se serena, rodeada de tranquilidade. A sua chave está no olhar atento a tudo o que me rodeia e na valorização do que realmente me importa que não é tão pouco como parece, porque é tudo o que necessito para ser feliz.
