A vida apresenta-se muitas vezes um caminho marcado por desafios e obstáculos. Há quem veja as dificuldades como motivo para lamentações. Outros porém aprendem desde cedo que levantar-se após cada queda é uma parte essencial do processo de crescimento. Esta minha reflexão pretende abordar a importância da resiliência, da autossuficiência e da autenticidade na formação do carácter, exemplificada através de experiências pessoais e familiares.
Não sou e nunca fui dado à pieguice. A época em que nasci e me criei era tão dura e agreste que assim que aprendi a andar em pé tive logo de aprender também a levantar-me sozinho cada vez que tropeçava. Ninguém ia a correr dar-me mimo ou colo. “Caíste? Levanta-te, filho!” Esta frase comum à minha infância não era sinal de falta de afeto, mas uma lição de vida transmitida com carinho. Os meus pais ensinaram-me que cair faz parte do percurso e que o essencial é levantar e enfrentar cada adversidade com coragem e ousadia.
Cresci, aprendi e formei-me nessa disciplina de uma forma tão sólida que me valeu para a vida toda. Procurei transmitir aos meus filhos esses mesmos valores: levantarem-se após cada tombo, serem prudentes para não tropeçarem duas vezes na mesma pedra, evitarem caminhos acidentados e inseguros, porque esses princípios são fundamentais para se sobreviver num mundo cada vez mais complexo, conferindo força e lucidez diante das tempestades da vida.
Viver não é fácil nem sequer para quem nada lhe falta. A abundância material nem sempre garante felicidade; há quem viva rodeado de riquezas, mas na solidão, sem amor ou afetos. A imprevisibilidade da vida exige atenção e preparação para o inesperado. Basta um olhar à nossa volta para percebermos as contradições e desigualdades que nos rodeiam.
Recordo os tempos em que andava descalço por falta de sapatos e tinha de esperar embrulhado numa manta ao lume que a minha roupa secasse, porque só tinha aquela. Na mesma freguesia existiam grandes herdades e palácios, hoje em ruínas porque os seus herdeiros não têm meios para os conseguir conservar. Ao contrário deles, com muito esforço e poupança eu consegui transformar a humilde casa onde nasci numa moradia capaz de acolher toda a família. Essa conquista foi fruto da persistência e da recusa em desistir perante as dificuldades.
Tudo o que escrevo ou digo está profundamente ligado à minha história, à minha família e às experiências que vivi. Recuso-me a preocupar-me com as opiniões alheias porque não devo nada a ninguém, por isso sou livre para dizer o que penso. Os tombos da vida deixaram muitas marcas, principalmente aqueles que foram provocados por rasteiras traiçoeiras que me feriram mais a alma do que o corpo. Contudo, todas as vezes que me faziam cair me levantava mais resiliente, persistente e determinado a seguir o meu caminho.
Vivo hoje em paz, tranquilo e blindado contra qualquer tentativa de perturbação. Quem pense o contrário, desengane-se. Ninguém tem poder ou força suficientes para abalar a serenidade que conquistei através de tantas lutas e superações.
É esta tranquilidade, fruto da coragem de conseguir levantar-me sempre, da honestidade de viver para mim e para os meus, da sabedoria de ignorar aquelas vozes que nada acrescentavam ao meu percurso, que desejo também para todos vós.
