Conheço de cor cada recanto da minha freguesia por mais longínquos que sejam da aldeia, porque os percorri a pé, umas vezes sozinho, outras acompanhado, inúmeras vezes. Nunca tive bicicleta quando a maior parte dos amigos da minha idade até já motorizadas tinham e nunca me senti diminuído por as não poder ter.
Cedo me foi ensinado e compreendi que a vida tem prioridades. E que a família é, entre todas, a primeira. O pouco que ganhava da minha magra jorna fazia falta para essas prioridades e não havia sobras para esses luxos. Por isso sozinho ou acompanhado, quase sempre com algum livro a tiracolo, marchava pelos campos e perdia-me horas a fio na companhia do vento até ao pôr do sol e quantas vezes a noite me rodeou ainda longe de casa.
Havia veredas tão seguras como as estradas e nelas eu sabia onde estava cada obstáculo a contornar. Hoje nem com óculos e à luz do dia os vejo já bem, mas naquele tempo, no meio do mato, mesmo no escuro das noites cerradas via a vereda, os contornos de tudo ao meu redor e os obstáculos. Mais do que uma boa visão aquilo era puro instinto.
E que bem sabia o sossego dos campos, a companhia das furtivas raposas, o monótono piar dos mochos ou o gorjeio dos pássaros, o cantar dos grilos e dos ralos. Só não achava muita graça ao grito agourento das corujas que tinham o péssimo costume de soltar o seu gu-ru-ru algo sinistro quando me sentiam passar mesmo por baixo das pernadas e ramos onde espreitavam os movimentos de algum rato imprudente no solo, para o seu jantar.
O meu viver foi na sua maior parte por estas rústicas paisagens. Depois de tantos sóis já passados, venho ainda visitá-las, mesmo com as pernas já a doerem e os pés a pesarem mais. Ontem voltei ao antigo povoado do Monte Velho, acompanhado pela minha inseparável companheira. Fomos demasiado longe mas apesar do cansaço valeu a pena o esforço.
Enchi de beleza os olhos e a alma, de harmonia e serenidade o coração. Após demorada visita ao pouco que dele resta, porque o granito das suas ancestrais paredes tem sido furtivamente “desviado” para os alicerces das modernas vivendas da atualidade mas não só, encetámos o regresso a casa acariciando as primeiras alvas e delicadas maias que já começam a despontar pelas giestas, pensando com alguma nostalgia:
- Será que aqui voltarei mais alguma vez?
Dissemos olá a uma bonita vitela que assim que nos viu logo se encaminhou para nós pregando um monumental susto à minha companheira que pensou que ia levar uma marrada.
Mas claro que não. Este gado é manso e muito pacífico quase sempre.
- Não tenhas medo! Tranquilizei-a…
A vitela pastoreava com mais duas ou três irmãs, e, habituada a que os donos lhes levem sempre algum miminho em forma de feno ou granulado de ração, dirigiu-se a nós à espera do seu “presente”.
Quando viu que não lhe levávamos nada, seguiu o seu caminho e nós o nosso.
Estava uma tarde ensolarada e no ar pairavam já por toda a parte os primeiros aromas primaveris. Aqueles cenários transportaram-me à minha meninice quando passei pelo carcomido toco do sobreiro que um raio derrubou quase ao meu lado quando eu era pastor.
Vencido pelos temporais e perpetuamente negro pela descarga incandescente que o derrubou, lá continua, indiferente ao tempo e às minhas memórias.
Logo a seguir passámos pela Tapada da Lagem Alta, mesmo ao lado da pedra de onde eu pulava na brincadeira e me picou um lacrau no dedo gordo de um pé, enquanto mais abaixo a minha mãe mondava milho na companhia da tia Ana Galinhas e da tia Maria José Meia que no céu estejam as três.
São tão doces e sabem tão bem estes encontros reais com as nossas memórias...
- Se puder, vou voltar. Decidi.
Foto que fiz a um marco na sua colocação original ainda não vandalizado no povoado do Monte Velho - Beirã.
