Foto da Beirã nos anos 60 do séc. XX
Na época em que nasci e cresci o quotidiano do meu Alto Alentejo era marcado por uma dureza que moldava o carácter e a vida de quem cá nascia e crescia. Os tempos eram difíceis sobretudo para aqueles – e eram mesmo muitos – que dependiam do amanho da terra à força de braços para sobreviver.
As suas mãos calejadas pelo trabalho duro e os rostos queimados pelo sol, eram testemunhos silenciosos das inúmeras dificuldades que enfrentavam diariamente.
Apesar da adversidade havia algo que tornava a vida mais leve: a solidariedade entre vizinhos. As casas viviam de portas abertas, sinal de confiança e de proximidade. E os vizinhos não eram apenas aqueles que moravam ao lado, mas uma extensão da família, alguém com quem se podia contar nos bons e maus momentos.
A escassez de recursos nunca foi motivo para o egoísmo. Pelo contrário, partilhava-se o pouco que havia: o pão, o silêncio e o cuidado. Uma merenda ao fim da tarde, uma conversa sussurrada à sombra de uma oliveira, ou um gesto de cuidado para com os mais velhos.
Tudo era motivo para unir, para fortalecer laços e para construir uma comunidade onde ninguém se sentia isolado ou só.
Não era preciso esperar pelo calendário para celebrar a generosidade. No meu Alto Alentejo de outrora, a entreajuda fazia do quotidiano um natal todos os dias. Pequenos gestos como ajudar na apanha da azeitona, oferecer uma sopa quente a quem chegava cansado, eram a expressão de uma humanidade profunda e genuína.
Essas memórias desse meu Alto Alentejo deviam servir de exemplo e inspiração. Num tempo em que o individualismo muitas vezes se sobrepõe ao coletivo, recordar a importância da partilha e da entreajuda seria fundamental para manter vivos os valores que realmente humanizam e unem mais as pessoas.
Neste Alto Alentejo dos meus pais e avós aprendi que mesmo na escassez é possível encontrar abundância no espírito de comunidade.
