domingo, 30 de outubro de 2016

Coisas minhas... (das tais)

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A rolita que era tão bonita...


Adoro animais. Sempre adorei. Talvez porque os meus pais sempre tiveram cães, gatos, galinhas, enfim, a bicharada dita doméstica. Gosto tanto de todos eles que não consigo sequer matar uma galinha ou um coelho manso para consumo de casa. Acabei com o galinheiro, o pombal e os coelhos porque me afeiçoava aos bichos e depois era um problema para os abater. Tive que me deixar disso e comprá-los no talho porque assim já não tenho que passar por esses sarilhos.

Vem mesmo a propósito de mais uma das minhas historias de gaiato. Aconteceu nas férias escolares que em criança ia às vezes passar com os meus primos em Espanha. Ainda hoje, quando um desses meus primos, o Raimundo, vem das Astúrias onde vive com a sua mulher e os seus três filhos visitar-me, se ri com gosto e fala naquela divertida peripécia.

Mas é melhor começar pelo princípio, não?

Pois bem...

Os meus pais viveram três anos no Monte das Amendoeiras, uma Casa Agrícola junto ao rio Sever, onde exploraram “de meias” com o lavrador e proprietário, uma várzea de vários hectares, no plantio e colheita de pimentos morrones, mas não só, ao quais eram destinados, alguns deles à indústria de conservas de Santo António das Areias para produção de pickles ou de massa de pimentão, enquanto os outros iam para a secagem em estufas a lenha chamadas de “secadeiros”, sendo posteriormente moídos nas duas fábricas da Herdade do Pereiro e transformados no famoso pimentão “Flor do Pereiro” de que muita gente por aqui ainda se recordará.

As Amendoeiras eram de um senhor que já faleceu e que cedia a moradia de todos nós, o terreno, as plantas e os fertilizantes assim como a água do regadio, enquanto os meus pais e dois dos meus tios, a Maria José (a tal que me deu colo quando me picou o lacrau) com o marido Joaquim (irmão da minha mãe) e ainda o primo Raimundo espanhol que fora contratado pelo meu pai, faziam tudo o resto. Lavravam, semeavam, plantavam, regavam, sachavam, colhiam e carregavam toneladas e toneladas de pimentos que iam sendo transportados diariamente na carroça do lavrador para as referidas indústrias da Firma Nunes Sequeira.

Eu devia ter uns 8/9 anitos. Todos os dias tinha que calcorrear a pé os cerca de 7 quilómetros pela manhã para vir à escola na Beirã acompanhado pela minha irmã Adelina, e à tarde, depois da escola, outros tantos no regresso às Amendoeiras. Umas vezes debaixo de chuva, outras vezes debaixo de sol, mas não morri, e cá estamos até hoje, eu e a minha mana mais velha, para vos podermos contar as nossas aventuras.

Do outro lado do rio, era (e ainda é)  a Espanha. E na “Finca de las Gagas”, algo lonjita das Amendoeiras junto ao rio Alburrel, vivia com a sua família o meu tio Joaquin Lorenzo, um dos irmãos do meu avô e que era cabreiro de um rebanho de “centenares” de cabras, como ele dizia. Tinha quatro filhos. A mais velha a Maria, seguida do Raimundo, e mais dois rapazotes um pouco mais velhos do que eu. O Joaquin e o Antonio com quem eu me dava muito bem e por isso ia para lá passar as férias escolares sempre que me deixavam.

Lembro-me como se fosse hoje daquele socho enorme coberto de piornos e xaras que fazia de cozinha e de sala de jantar onde comíamos castanhas secas cozidas em leite de cabra, uma perfeita delícia. E do outro socho mais pequeno onde dormíamos. Felicidade das felicidades, o meu tio e primos espanhóis tinham uma panóplia de animais amestrados que vinham comer à nossa mão e faziam parte da família! Uma cegonha que se chamava Adriana. Um corvo que se chamava Vicente. Um mocho que se chamava Carrilho. Não sei quantos gatos e cães. Rolas bravas. Cabras e cabritos. Era um paraíso para mim, tudo aquilo.

E foi quando me preparava para regressar a casa no fim de umas dessas férias que o meu tio Joaquin - que Deus o tenha - por ver que eu tinha tanto afeto à bicharada, foi buscar uma rolita nova que ainda quase nem voava e me a ofereceu dizendo:

 - Toma! Lleva-la contigo e toma-te cuenta della...

Louco de felicidade, agarrei a pobrezita e apertei-a contra o peito dando pulos de alegria. Em seguida fui ter com o meu primo Raimundo que tinha lá ido buscar-me para me acompanhar no regresso a casa e mostrei-lhe o presente adorado exclamando no meu portunhol de aprendiz:

 - Mira, mira, la rolita que tu padre me dió, que bonita...

Qual não foi o meu espanto quando a cabeça da rola tombou inerte. Estava morta. De tanta alegria e felicidade que senti, apertei com tanto carinho e tanta força a pobre ave que a sufoquei. Escusado seria dizer-vos que passei todo o caminho das  Gagas até às Amendoeiras a chorar desconsolado enquanto o Raimundo se ria a bandeiras despregadas e repetia olhando-me divertidíssimo:

- Oooohhh! Mira, mira, la rolita tan bonita…

E ria, ria, como um desalmado. Ainda este ano em Agosto veio de novo visitar-me como faz regularmente todos os anos há muitos anos, e voltou a falar disso com o riso do costume: 

- Pobrecita la rolita Josémanué...

É caso para dizer, como diz o ditado:

Tanto bem quer o diabo à mãe, que lhe tira os olhos!

Assim aconteceu comigo...


José Coelho in Histórias do Cota

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Bom fim de semana...


E não se esqueçam de atrasar em 1 hora os vossos relógios
na noite do próximo sábado para domingo, 29/30Out...

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Coisas q'escrevi...

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A taberna da ti’Arora


Lembro-me dela, como se lá tivesse estado ontem. Era na rua da igreja como todos na Beirã sempre lhe chamámos, ou, então, por ser mais fino, Rua Vivas de sua graça. Situava-se muito perto da Estação de onde recebia o seu maior fluxo de fregueses. Ferroviários e passageiros dos comboios.

Era uma taberna pequenina com uma só divisão de 5 ou 6 metros quadrados e nela havia apenas uma mesa redonda de ferro onde os fregueses jogavam cartas; o truque, as copas ou a sueca. No vão da janela perfilavam-se duas pipas de vinho daquelas grandes e antigas em ripa de madeira, uma do branco, outra do tinto.

Tinha a toda a largura da divisão um enorme balcão, de parede a parede, em frente a uma estante de madeira cheia de prateleiras onde se alinhavam os copos – daqueles muito antigos que até a meio era só fundo – em vidro muito grosseiro, à mistura com garrafas de ginja, de anis, de abafado ou de aguardente, porque os vinhos branco e tinto eram depositados em jarros de vidro com tampas de plástico, vermelha a do tinto e verde a do branco, pousados permanentemente em cima do balcão, prontos a usar. Na parede do lado e por dentro do balcão tinha como grande modernice naquela época, uma pia de marmorite com torneira de água canalizada onde eram lavados os copos.

Atrás do balcão, sentado num banquito de madeira, era comum encontrar-se quase sempre como taberneiro ti Afonso, já que a ti’Arora, merceeira, estava sempre mais no outro lado, na divisão contígua onde tinham também uma pequena mercearia que comunicava com a taberna por uma porta interior.

Era dali, daquela mercearia, que vinha quase tudo o que comíamos em nossa casa. Arroz e açúcar avulso, massas, farinhas, banha caseira ao quilo, manteigas, azeite e vinagre também a granel, toucinho, morcelas, chouriço e farinheiras, sal ou bicarbonato, feijão, grão, sardinhas em lata ou atum.

A pronto pagamento ou fiado, porque o dinheiro nesse tempo escasseava em quase todas as bolsas. Mas nunca naquela loja se negou o avio necessário ao sustento de muitas famílias, a minha incluída, sem necessidade de fiadores e sempre com bons modos, confiando na certeza do completo ajuste de cada conta, logo que as jornas fossem recebidas pelos chefes das famílias devedoras.

E era naquela taberna que o meu pai se entretinha depois do sol-posto até à hora da janta, onde e com os seus amigos jogava cartas ou bebia o seu copito, algumas vezes até mais do que a conta.

Boa gente o ti Afonso e a ti’Arora. Quer um, quer o outro. Abriam as portas às 6 da manhã com a chegada à estação do comboio sardinheiro – assim chamado porque era nele que vinha o peixe do litoral para os peixeiros ambulantes como o ti Carlos e a ti Perpétua venderem de porta em porta pelas aldeias ou montes - e fechavam serão dentro, normalmente depois da chegada do comboio das oito da noite.

Era também a parteira da aldeia “quase diplomada” a ti A’rora. Toda a rapaziada que nasceu nas décadas de 40, 50 e 60 por estes arredores - salvo algumas normais exceções que sempre as houve - caía nas suas mãos mal deixavam o ventre materno. Por isso era “a comadre Arora de uma infinidade de mulheres – incluindo a minha mãe – pois era uso e costume assim ficarem a chamar-se, nesse tempo, as mulheres parturientes com aquelas que faziam de parteiras, na hora de trazerem os filhos ao mundo.

Estava a ti'Arora ainda também habilitada a dar injeções a quem precisava de as levar, com grande perícia e sabedoria. Não havia posto de saúde permanente na Beirã. Vinha cá o falecido Dr. Machado uma vez por semana, esse extraordinário homem que era tudo em um porque exercia medicina geral, parteiro às vezes em partos mais complicados, e era ainda também dentista, entre outras “especialidades”. Dava consultas numa dependência da antiga sociedade recreativa preparada para esse efeito mas os tratamentos por ele prescritos eram feitos em casa de cada um e por isso lá se tinha que ir à ti Arora muitas vezes para ela dar as injeções receitadas pelo senhor doutor.

Todas estas “qualificações” que tinha eram, suponho eu, em grande parte devidas ao facto de ser uma das poucas pessoas do seu tempo e do seu extrato social que sabia ler e escrever, pois isso, parecendo que não, era uma mais-valia que lhe dava acesso a alguma formação, para além, evidentemente, do carisma, bondade e jeito muito seus, para desempenhar todas as funções descritas e que a constituíam num precioso auxílio em toda a aldeia e arredores para quem delas necessitava.

Não tenho dúvidas em afirmar que, quer pelo comércio por eles exercido, quer pela forma inexcedível como eram assim prestáveis para toda a gente, este casal e a sua casa comercial merecem fazer parte da memória coletiva da nossa Beirã pese embora ainda ninguém se tivesse dado ao trabalho de enaltecer o seu contributo.

Aqui fica então, humildemente e com muito respeito pela sua memória, esta modesta homenagem aos dois.


José Coelho in Histórias do Cota

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Escolha premeditada e falta de carácter...

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Coisas que leio...

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A árvore dos amigos


Existem pessoas nas nossas vidas que nos deixam felizes pelo simples facto de terem cruzado o nosso caminho.

Algumas percorrem-na ao nosso lado vendo muitas luas passarem, mas outras apenas as vemos entre um passo e outro.  A todas elas chamamos de amigos.

Há muitos tipos de amigos. Talvez cada folha de uma árvore caracterize cada um deles. Os primeiros que nascem dos brotos é o amigo pai e a amiga mãe. Mostram o que é ter vida.

Depois vem o amigo irmão com quem dividimos o nosso espaço para que ele floresça como nós e passamos a conhecer toda a família a quem respeitamos e desejamos o bem.

Mas o destino apresenta-nos outros amigos, aqueles que não sabíamos que iriam cruzar o nosso caminho. Muitos desses são designados amigos do peito, do coração. São sinceros, são verdadeiros. Sabem quando não estamos bem, sabem o que nos faz felizes.

Às vezes, um desses amigos do peito estremece no nosso coração e então é chamado de amigo namorado. Esse dá brilho aos nossos olhos, música aos nossos lábios, pulos aos nossos pés.

Mas também há aqueles amigos por um tempo, talvez umas férias ou mesmo um dia ou uma hora. Esses costumam colocar muitos sorrisos na nossa face durante o tempo em que os temos por perto.

Falando em perto, não podemos esquecer-nos também dos amigos distantes, aqueles que ficam mais pelas pontas dos ramos mas que quando o vento sopra aparecem novamente entre uma folha e outra.

O tempo passa, o verão vai-se, o outono aproxima-se e perdemos algumas dessas nossas folhas. Algumas voltam a nascer num outro verão, outras permanecem por muitas estações.
Contudo, as que nos deixam mais felizes, são aquelas folhas que caíram mas continuam por perto para alimentarem as nossas raízes com as lembranças de momentos maravilhosos vividos enquanto cruzaram o nosso caminho.

Desejo a todos os que são folhas da minha árvore, Paz, Amor, Saúde, Sucesso, Prosperidade. Hoje e Sempre.

Porque…

Cada pessoa que passa pela nossa vida é única e deixa sempre connosco um pouco de si, levando também com ela um pouco de nós. E há os que levam muito, mas não há os que não deixam nada.

Essa é a maior responsabilidade da nossa vida. 
A prova evidente de que duas almas nunca se encontram por acaso...


Autor desconhecido

domingo, 23 de outubro de 2016

sábado, 22 de outubro de 2016

Mais... Coisas minhas.


 


Não foi um lacrau, foi um bicho...


Ainda não andava na escola, teria por isso menos de 6 anos. Consigo no entanto reconstituir perfeitamente a cena, recordar o local, o que aconteceu, e até a minha tia a trazer-me ao colo para casa. Por conseguinte, não devia ser nem muito grande ainda, nem muito pesado, pois a distância era considerável e o caminho pedregoso.

Aconteceu na tapada da Lagem Alta hoje coberta de giestas e de mato mal se vislumbrando já o chão, mas, naquele tempo, não havia pedaço de terra que não fosse cultivado por estas bandas. Por isso, aquela tapada, como todas as outras confinantes, tinha sido semeada. Nas zonas mais altas e mais quentes, de milho de massaroca para debulhar na eira. E dos dois lados da barroca, onde a terra era mais fresca, de feijão frade para venda e consumo no resto do ano.

A minha mãe, a tia Marizé Meia e a ti Ana Seco (que Deus já chamou) afadigavam-se, de sacho na mão, na monda do viçoso milho, enquanto eu, descalço, – porque as sapatilhas só se calçavam nos domingos – brincava um pouco mais acima, fora da zona semeada e pulando de uma pedra para baixo. Subia, pulava, voltava a subir e voltava a pular. De onde estava, a minha mãe ia avisando prudentemente:

- Não andes a pular nas pedras que é capaz de haver para aí “alacraus”…

Mas eu – como sempre – ignorei os avisos de quem sabia o que estava a dizer e continuei alegremente no meu pula-que-pula. Tanto pulei que, às páginas tantas… Zás… Uma aguda ferroada no dedo gordo de um pé.

Até vi estrelas…

E...

Agora nós! Comecei aos berros como um desalmado:

- Mãããeee... Ó mããããeee…

Não sei o que me assustava mais. Se aquela forte dor no dedo ou se aquela impressão esquisita de formigueiro a subir pela perna acima...

As três mulheres largaram imediatamente os sachos e correram para mim a ver o que me tinha acontecido ao mesmo tempo que exclamavam:

- Ah cabrão que já te ferrou algum “alacrau”…

Sabia lá eu o que era um alacrau ou o seu tamanho e por isso respondia-lhes aflito berrando cada vez mais alto:

- Nããããooo! Nã’foi um alacrau! Foi um bicho…

A primeira coisa que a minha mãe fez foi esgaravatar com um pau de giesta a terra toda sob a base do pedregulho e não tardou a encontrar o energúmeno que me havia ferrado o dedo. Pudera! Eu estivera a destruir-lhe minuciosamente a toca com os meus pulos e ele zangou-se! E calhou tão bem que até estava descalço, com uns apetitosos dedos mesmo à mão de semear para o furioso artrópode se vingar. Nunca mais ferrou ninguém, porque foi esmagado de seguida pelo pé da minha mãe que não sei com quem estava mais zangada. Se comigo por nunca fazer caso dos avisos dela, se com o lacrau por me ter picado.

Entretanto a ti Ana Galinhas foi-se ao cesto da merenda e à falta de outro remédio para acalmar as minhas dores assim como o inchaço no dedo, cortou uma fina fatia de toucinho cru e envolveu com ela a zona picada, atando-a em seguida com um trapo para a "mézinha" ali se manter sem cair.

De nada resultou, coitada, mas valeu a intenção! Quem já foi picado por um bichinho daqueles sabe que se seguem algumas horas de uma dor intensa e latejante com a sensação de formigueiro em redor da zona ferrada. Foi por isso um resto de dia a chorar sentado à sombra de um sobreiro e tão quieto quanto as dores  o permitiam. Como é que um bicharoco tão pequeno produz um veneno tão assanhado e que tanto dói? 

Naquele dia não havia mais nada a fazer porque a minha mãe não podia dar-se ao luxo de perder a jorna de um dia de trabalho por causa da minha estouvadice. Coitada da tia Maria José Meia que ao sol posto, quando largou por fim o sacho com que todo o santo dia sachou, ainda teve que me trazer ao colo até casa conforme me prometera várias vezes:

- Cala-te já, filho! Olha, se não chorares mais, logo levo-te ao colo para casa…

E trouxe mesmo. Já velhinha, comenta às vezes, sorrindo com a lembrança: 

- E o tal alacrau que não era um bicho? 

Sempre foi terra de muitos lacraus, a nossa. Basta levantar uma pedra aqui ou ali e lá está um ou dois deles, de ferrão em riste na ponta da cauda. Mal as noites começam a refrescar no final do verão, princípios do outono, é ouvi-los em coro no seu monótono cricar, logo que escurece: - Cri-cri! - Cri-cri! Suponho, porque não volta a ouvir-se nunca mais em todo o ano, que será a época de acasalamento e aquele seu cricar mais não será que um milenar ritual nupcial para atrair as fêmeas.

Sorrio melancolicamente algumas vezes ao ouvi-los, não pelas saudades da ferroada que levei mas porque me fazem lembrar o tempo indelével da minha feliz meninice. 

Muito mais feliz, tenho a certeza, do que a velhice que já vem chegando...


José Coelho in Histórias do Cota

* Excerto

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Bom fim de semana...

Estação da Beirã - Anos 50 - Autor desconhecido

Pode ser...

Foto by Pedro Coelho - 2015.10.10

Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.

Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.

Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.

Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,

Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.



Albert Einstein

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O pior que o outono traz...


... É este cheiro nauseabundo que invade a aldeia e parece entranhar-se até dentro das nossas casas, mal caem as primeiras chuvas. 

Lixos a arder...

Se já não há hortas, se já somos por cá tão poucos, por que raio temos que suportar a porcaria deste cheiro durante semanas, todos os anos?

Arre, porra qu'é demais!

domingo, 9 de outubro de 2016

Coisas que escrevo... (noutros sítios)

Foto by Pedro Coelho

O dia 8 de Outubro de 1926 foi aquele em que nasceste, Mãe. Terias cumprido hoje 90 anos se estivesses ainda conosco. Não pude vir aqui em todo o dia mas não podia ir dormir esta noite sem vir dar-te o meu beijinho de parabéns

Encontrei esta foto do dia 8-10-2011, aquele em que festejámos contigo o teu 85º aniversário numa almoçarada com quase toda a família mais próxima por empenho e vontade teus.

A nossa Luz não pode estar presente por motivos de força maior mas esteve com toda a certeza, do mesmo modo, no coração de quantos pudemos comparecer.

O dia em que nasceste, Mãe, será sempre para mim um dia inesquecível. Que Deus te guarde junto dele e se puderes continua a olhar por todos nós que continuamos a amar-te.

Voltarmos a encontrar-nos um dia, Mãe...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Bom feriado, pessoal...

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Coisas que escrevo...



Coincidências. Ou talvez não…


Naquele fim de manhã encontrava-me numa das salas de espera do hospital de Portalegre a acompanhar a minha mulher que tinha partido um joelho há algumas semanas e nesse dia iam retirar-lhe o gesso. Sentia-me triste, acabrunhado, receoso, desanimado, infeliz, um pouco desiludido até, em virtude do acidente doméstico que a aleijara gravemente e eu achava que ela não merecia ter sofrido. Bem se diz que quanto melhores são as pessoas, menos sorte têm. Uma rótula esmigalhada era provavelmente uma sentença de invalidez permanente numa ainda jovem esposa, companheira, fada de um lar com três homens a desarrumá-lo, uma vida inteira pela frente.

Cogitava de mim para mim intranquilo e algo revoltado, questionando mais uma vez os desígnios do Altíssimo que nem sempre parecem ser tão justos ou entendíveis como os apregoam quando subitamente alguém escancarou  a enorme porta de vidro que dava para a rua afim de entrar com uma maca em que transportava um doente. No mesmo instante a corrente de ar produzida pela abertura da porta fez voar em várias direções alguns papeis pousados numa prateleira e aos quais aparentemente ninguém ligava importância. Um deles veio cair quase junto dos meus pés. Apanhei-o mecanicamente mais por reflexo do que por curiosidade mas logo me chamou a atenção um desenho a preto e branco do rosto de Jesus Cristo por me parecer que “aquilo” estava completamente fora de contexto naquele sítio.

Olhei por isso mesmo com mais atenção para a folha e comecei  a ler o “recado” escrito por baixo do desenho.

Dizia assim:

“Quando te levantaste hoje pela manhã, Eu já tinha preparado o sol para aquecer o teu dia e o alimento para a tua refeição. Sim, Eu preparei tudo isso; vigiei o teu sono, a tua família, a tua casa. Esperei pelo teu “bom dia” mas esqueceste-te! Bem… Parecias ter tanta pressa! Eu perdoei!...

O sol apareceu, as flores deram o seu perfume, a brisa da manhã acompanhou-te e tu nem pensaste que fui Eu que preparei tudo isso para ti. Os teus familiares sorriram-te, os teus colegas cumprimentaram-te, trabalhaste, estudaste, viajaste, realizaste negócios, alcançaste vitórias, mas não percebeste que Eu estava a cooperar contigo e mais teria feito de Me tivesses pedido. E corres tanto… Eu perdoei!...

Leste bastante, ouviste e viste muita coisa, mas não tiveste tempo para ler e ouvir a Minha Palavra: Quis falar contigo mas não paraste para me atender. Quis aconselhar-te mas nem pensaste nessa possibilidade… Se Me ouvisses, tudo seria melhor na tua vida. Mais uma vez te esqueceste de Mim… Esqueceste-te que Eu desejo a tua participação no Meu reino, com a tua vida, o teu tempo, os teus talentos! Findou o teu dia e voltaste para casa!

Mandei a lua e as estrelas tornarem a noite mais bonita para te lembrar o amor que tenho por ti! Certamente agora vais dizer-Me “obrigado” e “boa noite”! Pschiu… Estás a ouvir? Que pena… Já adormeceste! Boa noite! Dorme bem! Eu fico a velar por ti. Mas quando por fim quiseres saber quem Sou, pergunta ao riacho que murmura, ao pássaro que canta, à flor que desabrocha e à estrela que cintila, ao moço que espera e ao velho que recorda… Chamo-Me Amor e sou o Remédio para todos os males que te atormentam o espírito... Eu sou Jesus“

Acabei de ler o sugestivo "recado" já completamente invadido por um sentimento etéreo, estranho, impossível de descrever! Senti algo muito forte, uma serenidade subtil que me comoveu ao ponto de ficar com os olhos completamente aguados. Sentia-me também em simultâneo profundamente sensibilizado e incrédulo pela oportunidade daquele texto, agradecendo do fundo do coração como ele se tivesse sido escrito propositadamente para mim. Mostrei-o a seguir à minha lesionada companheira e posso garantir-vos que os dois nos sentimos naquele momento reconfortados como não nos sentíamos talvez desde o dia em que ela caíra nas escadas lá de casa e fizera em três a rótula de um dos joelhos.

Guardo comigo ainda hoje a folha de papel que o vento nos trouxe e posso mostrá-la a quem a quiser ver e ler.

Diz o povo na sua imensa sabedoria que “presunção e água benta cada um toma a que quer”. Garanto-vos que nós acreditámos sinceramente que foi uma forma transcendente de conforto divino naquele que estava a ser um momento bastante problemático para os dois. Tenho lido e acredito que os desígnios de Deus são insondáveis e se revelam sempre das formas mais subtis bastando estarmos atentos para os sentirmos e compreendermos no mais íntimo do nosso ser. Naquela hora, no âmago de uma tristeza imensa, senti, em toda a acepção da palavra, ter sido tocado por algo imaterial porém muito explícito, tendo em conta a subtileza de como aconteceu.

E quanto bem me fez, bendito Deus. Inexplicável, mesmo.

Ponderada hoje toda a situação a frio e passado já bastante tempo é justo reconhecer humildemente que nada houve que nos pudesse ter feito duvidar fosse do que fosse, mas que, pelo contrário, muito houve e haverá ainda para agradecer até ao fim das nossas vidas. Tendo sido transportada de imediato para o hospital, teve a Manuela a sorte – teria sido apenas a sorte? – de ser atendida e a seguir operada por um dos melhores ortopedistas do país – omito propositadamente o seu nome por respeito e consideração a todos os demais – que casualmente ali prestava serviço e naquele dia estava de atendimento ao banco de urgências, o qual, com toda a perícia e competência que lhe dão enorme e justa fama, conseguiu unir com grampos e fios metálicos os três fragmentos de osso e reconstruir tão completa como eficazmente a rótula estilhaçada. De tal forma o fez que não ficou qualquer sequela pós-operatória para além da enorme e indisfarçável cicatriz.

Tudo não passou de meras coincidências, dirão alguns.
Talvez sim, ou talvez não, digo eu.
Nem sempre à luz dos factos coincide a luz da fé.
Cada um que fique pois, como é justo, com aquilo em que acredita.

José Coelho in Histórias do Cota

domingo, 2 de outubro de 2016

Coisas que escrevo...

Hoje é uma estrada alcatroada mas já foi caminho de terra batida percorrido todas as noites por muitos contrabandistas. Foto da minha autoria


Contrabandistas


Onde há raia houve de certeza contrabando e contrabandistas. E houve também, como não podia deixar de ser, muitas histórias contadas pelas pessoas que no escuro da noite caminharam pelas veredas existentes por entre matos e canchais em direção à fronteira, a qual, na nossa freguesia, é toda limitada pelo rio Sever.

Tive a sorte de conhecer muitos desses valentes, alguns da minha família mais próxima, por sinal homens respeitáveis, sérios, de poucas falas e ainda menos sorrisos. Sei muitas histórias que deliciado ouvi, narradas por essa gente simples e pura que deliberadamente infringia as leis sim, mas com a única e julgo que aceitável intenção de ganharem o sustento das numerosas proles de seis, sete, oito e às vezes mais filhos a seu cargo, e, por isso mesmo, sem qualquer intenção malévola premeditada ou criminosa de desafiarem à toa a autoridade do estado.

Para eles, transportarem aquelas pesadas cargas às costas no escuro da noite, debaixo de bom tempo ou de invernia, terem ainda que atravessar as correntes e enchentes do rio Sever semi-nus com carga e roupa sobre a cabeça para não as molharem, mais não era que uma “profissão” bastante arriscada, e que, por isso mesmo, era muito mais bem paga do que qualquer outro serviço rural que pudessem desempenhar por estas terras pobres onde a agricultura foi quase sempre de subsistência.

Eu próprio e a minha irmã mais velha fomos também contrabandistas ainda que em pequena escala e por conta exclusiva dos nossos pais que nos mandavam levar para Espanha certos produtos – 3 ou 4 dúzias ovos por exemplo – em   troca de coisas que trazíamos na volta para cá, essencialmente comida, como, por exemplo, latas de azeite, toucinho a granel ou pão. Também uma boa parte dos enxovais das minhas irmãs – louças de pirex, esmaltes, sertãs e outros utensílios de cozinha – vieram de Espanha por essa via. Aos poucochinhos. Hoje trazíamos o tacho, para a semana a cafeteira, depois a frigideira…

Porém, os profissionais das madrugadas caminhavam curvados pelo peso de, no mínimo, 30 kg de carga, acompanhados sempre pelo receio de serem detetados pelos guardas fiscais portugueses ou pelos guardias-civis espanhóis. Com os olhos tinham que vigiar o caminho e com os ouvidos escutar atentamente qualquer ruído que os pudesse alertar da proximidade dos fardados para que não lhes saltassem ao caminho, pois, se tal acontecesse, era largar a carga, desatar a fugir e esconderem-se logo que pudessem. Perdiam o fôlego, perdiam a carga, perdiam a jorna da noite, perdiam também o esforço de muitas horas de caminho. Mas outras viriam! O que interessava era não se deixarem “ganfar” pelos guardas porque seriam imediatamente presos e teriam mesmo problemas muito sérios.

Era assim por todas estas aldeias e lugarejos da raia! Beirã, Cabril, Bica, Pereiro, Barretos, Vales, Vale de Milho, Ranginha, Cabeçudos, Relva da Asseiceira, Aires, Tapadão de Mato e muitos outros, porque nesse tempo era tudo habitado onde quer que houvesse uma casinha, por mais isolado que fosse o lugar. Ao escurecer formavam-se os grupos no local de encontro que só eles sabiam, traçavam-se os percursos, vigiavam-se os movimentos dos guardas e desaparecia-se na noite para se ganhar o preço previamente negociado.  Assim que os mais novos tinham forças para “alombarem” com as cargas e pernas para caminharem as longas distâncias, entravam para o grupo. Era assim com eles, porque assim tinha sido com os seus pais e avós, assim seria provavelmente também mais tarde com os seus filhos quando os tivessem.

Mulheres contrabandistas também as havia e muitas, se bem que com cargas mais leves. E também elas atravessavam rios e ribeiros nas noites de chuva ou de bom tempo para ajudarem no sustento das casas se fosse preciso. Muitas vezes vi a minha mãe e as minhas tias enrolarem-se em peças da “pana” a que hoje chamamos bombazina para assim passarem, debaixo da roupa, metro a metro, peças inteiras do tecido que iam trazendo aos poucos das lojas do outro lado do rio, como a loja do Batão, a do Bravo, ou a do Pinadas, e que assim eram fornecidas diretamente aos alfaiates das aldeias para as transformarem em calças, casacos ou fatos completos muito apreciados nesse tempo por serem mais quentes e durarem muito mais tempo que os tecidos portugueses.

Vi também, com os dois olhos que Deus me deu e a terra irá comer, alguns vizinhos guardas fiscais e até alguns guardias-civis espanhóis também, a ajeitarem um quilo do café em grão “Guapa” em cada um dos bolsos laterais do casaco da sua farda, na loja do sr. João Batista e na loja da Ti Zabel, minutos antes de embarcarem nos comboios que iam patrulhar entre a estação da Beirã e a de Valência de Alcântara. Eles próprios faziam também contrabando – eu vi, como já afirmei, ninguém me contou – provavelmente porque os seus ordenados não seriam por aí além muito famosos.

Contrabandeava-se um pouco de tudo nesse vaivém constante pela raia. Mas o contrabando puro e duro eram as cargas de volfrâmio – nas barreiras do rio Sever perto do Matinho ainda se podem ver os buracos deixados pela exploração desse minério – de especiarias como a canela e os cominhos, de relógios de pulso, de tabaco, de papel de fumar, de máquinas de costura e até de gado, sendo essas práticas as que estavam sob a mira mais atenta das autoridades.

É preciso não esquecer que esta comunhão entre os dois países, não fez passar apenas pela raia cargas às costas, fez também passar todo o tipo de contactos e intercâmbios pessoais e culturais. A minha sogra nasceu na aldeia de S. Pedro da comarca de Valência de Alcántara em Espanha e casou com o meu sogro, natural dos Barretos-Beirã-Portugal. Os irmãos do meu avô materno são todos espanhóis pois só ele casou por cá com a minha avó. Mas também a toponímia e a linguagem ganharam pronúncias próprias porque muitas palavras portuguesas "espanholaram-se" enquanto muitas palavras espanholas se "aportuguesaram". Foi até a gastronomia que misturou sabores do lado de cá e do lado de lá da fronteira.

O contrabando foi ainda, como já disse, feito de muitas histórias. Cada contrabandista, cada guarda-fiscal, cada guardia-civil e cada caminho percorrido por estas gentes tem as suas. De dia era uma terra de camponeses, à noite de contrabandistas. Na mesma aldeia viviam guardas fiscais e contrabandistas, as duas faces antagónicas do contrabando. Conviviam e ocupavam os mesmos espaços, quer nas aldeias, quer nos caminhos percorridos. Espreitavam-se com astúcia e engenho tentando cada um, na defesa do seu mister, enganar o outro.

Ambos conheciam esses caminhos, - muitos guardas fiscais, eram destas zonas, filhos mesmo de contrabandistas também e, na sua adolescência, antes de ingressarem naquele organismo, teriam andado por aí com algumas cargas às costas sabendo, por experiência própria, muitos truques e estratagemas que agora lhes eram úteis, mas por motivos diferentes. Assim, enquanto uns vigiavam atentamente caminhos e veredas, os outros percorriam-nos conseguindo ludibriar sorrateiramente tal vigilância, trazendo e levando mercadorias que alimentavam o comércio de ambos os países. Curiosamente, esses caminhos eram o sustento de todos. De uns e dos outros.

Hoje, já não há contrabando, pelo menos o praticado nos moldes aqui referidos porque deixou de haver necessidade de vigiar a fronteira. Os guardas fiscais foram extintos, os contrabandistas envelheceram e os caminhos deixaram de ser percorridos, nada mais restando desses trilhos. O silêncio da noite por esses canchais só é perturbado agora pela actividade dos javalis, dos saca-rabos e das raposas que por aí vagueiam em busca de alimento.

Acabaram-se pois as aventuras e as histórias. Inevitavelmente, as memórias de tudo isso, ir-se-ão perdendo. E são essas memórias comuns a todas as nossas aldeias, a todos os lugares desta zona raiana onde existiu o contrabando, que foi acima de tudo, o pão que alimentou muitas bocas e onde existiram os contrabandistas, protagonistas desse período não muito distante da nossa história colectiva, que seria justo preservar. 

José Coelho in Histórias do Cota