domingo, 1 de março de 2026

Rumo ao sol poente

Quando tomei a decisão de regressar definitivamente à Beirã tinham já passado mais de trinta primaveras a viver fora dela, pese embora nunca demasiado longe. Esse sonho nunca me abandonou desde que de tive de sair, a sete de maio de 1971, para assentar praça como recruta voluntário no então Batalhão de Caçadores Nº 8 em Elvas, até sete de outubro de 2003 quando, promovido a sargento-ajudante da GNR, essa promoção determinou a minha colocação no Agrupamento de Instrução em Portalegre, em funções administrativas,
Farto de andar com a casa às costas, foi mesmo essa situação que me impeliu a voltar definitivamente à terra para habitar a casa que tinha adquirido ao meu pai e reconstruído, com a firme intenção de nunca mais de cá sair. Foi exatamente o que fiz, deslocando-me diariamente de casa para o local de trabalho e vice-versa nos dez anos seguintes, até passar à situação de reforma.
O íntimo apelo destas paragens, destas ruas, destas pessoas, destes canchos e matagais, deste aroma das giestas em flor na primavera e da paz infinita que se respira por toda a parte o ano inteiro, nunca deixou de se fazer sentir no meu subconsciente, porque foi, é e será sempre para mim, o mais perfeito paraíso na terra.
Nunca encontrei lugar mais sedutor, apesar de ter conhecido algumas terras lindas de gente boa que nos recebeu e tratou sempre muito bem, onde estabelecemos por isso amizades genuínas, daquelas que são para durarem a vida toda.
Li já não sei onde, que os elefantes voltam sempre ao lugar onde nasceram quando sentem que se aproxima o fim. Provavelmente serei também portador desse instinto primário, porque nunca imaginei outra hipótese. Tanto assim é que há muito, muito tempo – tinha ainda só 45 anos – tratei de comprar a outra “casa” onde irei “morar” por toda a eternidade ao lado daquela onde “moram” já os meus queridos progenitores.
Recordo a reação e surpresa da família mais próxima, quando tal aconteceu. Mas não me demoveram dos meus propósitos. Nunca fui supersticioso e soube sempre muito bem o que queria, não tive por isso a menor hesitação em avançar com a aquela aquisição pela exclusiva razão de querer mesmo descansar eternamente ao lado dos dois entes queridos a quem devo a vida e tanto amei.
Sou homem de convicções fortes, determinado, com as ideias em ordem e muito bem resolvido, por isso entendi que estava apenas e atempadamente, por firme e lúcida decisão a adquirir – antes que outros o fizessem – aquele lugar onde e junto de quem quero descansar, quando chegar a hora de ir ao encontro deles.
Nem tudo foram rosas no decurso desses mais de trinta anos de ausência. Pelo contrário. A ida à guerra ensinou-me da pior forma o quanto é bom vivermos em paz, o intrínseco valor da vida e o quanto ela é frágil, imprevisível, fugaz. Nos piores momentos voltei-me sempre para a Mãe do Céu que deixara na Beirã muito perto da minha Mãe da Terra, tendo todas as razões e outras tantas convicções que se não fosse a sua divina proteção, talvez já não estivesse aqui.
Mas adiante, que essas deduções íntimas devem ser guardadas só mesmo para nós.
Abordei o assunto apenas para concluir que não foi a guerra em Angola o pior que vivi, mas também muitas outras misérias humanas que tive de enfrentar enquanto profissional; nas Minas da Panasqueira vi morrerem camaradas entaipados nas profundezas da terra esmagados por desabamentos de tetos instáveis – ao saberem isso, quer a minha mãe, quer a mãe dos meus filhos, não descansaram enquanto não me convenceram a sair de lá.
Ingressei na GNR, a tal vida presumivelmente melhor que a de mineiro, para ter de lidar com pais que mataram filhos, filhos que batiam nas mães, famílias desfeitas em acidentes de viação, violência doméstica das mais perversas formas, roubos e vigarices com mais ou menos perversidade, chefes que se julgavam deuses e pisavam sem compaixão quem tinham ao alcance dos pés, enfim, um sem número de coisas que me foram sempre ensinando a valorizar cada vez mais a minha tranquila e tão bem frequentada aldeia.
Daí o anseio pelo regresso cada dia – e foram mesmo muitos – de ausência.
Não imaginava que o meu sonho de uma vida inteira viria a ser tão doloroso como começou a sê-lo no dia que a aldeia do meu coração foi injustamente condenada ao abandono. Não estando porém ao meu alcance reverter ou modificar tão funesto veredicto, tenho de viver com ele, que remédio.
Como disse o poeta, “todo o mundo é composto de mudança”.
Sigo assim a minha caminhada pelo outono da vida, rumo ao sol poente. Serenamente, triste às vezes, conformado outras e esperando o dia em que ele não voltará a nascer para mim.

Gratidão


Do mesmo modo em que um dia chegamos sem nada trazer, virá outro em que iremos embora sem nada levar também, porque o tempo que a cada um de nós é concedido, vem com princípio e fim.

Sem dramas, sem receios e sem qualquer amargura, sei que o meu naturalmente se vai aproximando do término da jornada, porque sinto o raciocínio, a agilidade, a força, a energia e as capacidades cognitivas a diminuírem, cada dia que passa.
Não terei sido tão feliz quanto desejava, mas fui com toda a certeza o suficiente para reconhecer que valeu a pena ter nascido.
Não tive tudo o queria, mas tive o bastante para hoje olhar para trás e com toda a honestidade agradecer:
- Obrigado Vida por tudo o que me deste.
01. 03. 2026

O que a vida trouxe, a vida levou